sexta-feira, 1 de abril de 2011

A última tentação de Bianca: o PL 122-06 e o totalitarismo gayzista (Parte I)

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), graças aos seus habituais autoritarismo e truculência, acabou caindo numa traiçoeira armadilha política. Em participação no programa CQC (da Rede Band), ao ser perguntado pela cantora Preta Gil o que faria se seu filho se apaixonasse por uma negra, Bolsonaro respondeu: "Eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como lamentavelmente é o seu" (ver aqui). A infeliz declaração, como era de se esperar, provocou uma pronta, e em larga medida justa, reação de indignação. Bolsonaro foi, no mínimo, gratuitamente grosseiro com Preta Gil e, no máximo, racista.

A respeito da acusação de racismo, o deputado justificou-se dizendo que entendera mal a pergunta e que, ao falar em promiscuidade, acreditava ter sido questionado sobre um eventual relacionamento de seu filho com um gay (ler aqui).  O próprio apresentador do CQC, Marcelo Tas, julgou que Bolsonaro compreendera mal a pergunta. E, de fato, pelo contexto, como também pelo seu histórico de ataques verbais ao homossexualismo, é provável que Bolsonaro tenha mesmo entendido "gay" ali onde Preta Gil disse "negra".

Ocorre que a confusão feita por Bolsonaro caiu como uma luva para o movimento gayzista - formalmente chamado de LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) -, que, por meio do Projeto de Lei anti-homofobia (o PL 122-06), pretende igualar o preconceito contra o homossexualismo à prática de racismo. Para esse movimento, pouco importa o que Bolsonaro realmente quis dizer, mas sim o fato de que suas declarações poderiam vir a ser usadas para desmoralizá-lo e neutralizá-lo publicamente, uma vez que o deputado do PP-RJ é um dos mais atuantes oponentes ao PL 122-06. 

Como escreveu em seu blog o jornalista Reinaldo Azevedo (ler aqui), Jair Bolsonaro é o inimigo que os gayzistas pediram a Deus, pois que tosco e autoritário o suficiente para ser tachado com certa facilidade de racista e homofóbico. Nesse sentido, sua última declaração foi apenas a cereja do bolo. Pronto! Bolsonaro era a prova que faltava para demonstrar a tese de que toda crítica ao homossexualismo é intrinsecamente análoga ao racismo e que, portanto, a lei anti-homofobia se justifica. 

Diante do ocorrido, o deputado federal e ex-BBB Jean Wyllys (PSOL-RJ), um militante pró-gayzismo e incansável defensor do PL 122-06, afirmou que pedirá uma punição a Bolsonaro junto ao Conselho de Ética da Câmara. No mesmo sentido, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) anunciou que pedirá a cassação do parlamentar. Bolsonaro está sendo acusado dos crimes de racismo e homofobia (a despeito do fato de que essa última categoria nem esteja ainda prevista legalmente).

A armadilha na qual Bolsonaro deixou-se prender feito um tatu desavisado vinha sendo preparada há bastante tempo, orquestrada pelo poderoso lobby gayzista, que, além de apoio governamental (político tanto quanto financeiro), conta com uma ampla maioria de simpatizantes nos grandes meios de comunicação no país. A atitude da OAB, por exemplo, parece-me ser claramente uma forma de agradar ao lobby.

Bolsonaro já vinha participando de diversos programas sensacionalistas que, sob o pretexto de promover um 'debate' sobre os direitos gays ou sobre o homossexualismo, tinha o evidente objetivo de ridicularizar publicamente o deputado - tarefa, aliás, para a qual ele próprio sempre contribuiu com muita presteza (ver, por exemplo, esse programa na Rede TV!). A verdade é que Bolsonaro e seus detratores políticos gostam de jogar para a platéia e, portanto, o caso acabou mesmo sendo favorável para ambos: para os gayzistas, a atitude do parlamentar forneceu um ótimo argumento a favor da necessidade de uma lei anti-homofobia, uma vez que a atuação de Bolsonaro parece ser motivada por uma implicância pessoal contra o homossexualismo; e para o próprio Bolsonaro, que agradou seu público cativo de eleitores, grande parte do qual, sem dúvida, espera exatamente esse tipo de comportamento de seu representante.

Mas o escândalo acaba sendo péssimo para o país, porque impede uma discussão aprofundada e esclarecedora acerca do PL 122-06, que aparece, então, como um projeto absolutamente necessário e justo, como se quem eventualmente viesse a criticá-lo nada mais fosse do que uma espécie do gênero Bolsonaro. Eis aí, de fato, a intenção aparente do lobby gayzista: transformar a crítica ao gayzismo em uma aberração, uma truculência, uma atitude exclusiva de pessoas como o deputado do PP-RJ. 

Não sei se Bolsonaro é racista e homofóbico, como seus detratores políticos nesse caso pretendem histrionicamente decretar. Mas acho sim que ele é intolerante e preconceituoso em relação aos gays, e que essa sua posição pessoal confunde-se indesejavelmente com o combate político ao PL 122-06. Sei, além disso, que ele é tosco e ignorante. Logo, é triste que Jair Bolsonaro seja um dos principais representantes parlamentares da posição contrária ao PL 122-06, que é uma posição, em si, perfeitamente legítima e, a meu ver, necessária. 

Eu, pessoalmente, acho que, ao contrário de defender os direitos de uma minoria supostamente ameaçada, o PL 122-06 é um projeto totalitário e anti-democrático, que retrata bem a própria natureza do movimento gayzista atual. O presente artigo pretende fornecer razões para essa opinião.

Antes de abordar o assunto, quero deixar claro que, por "gayzismo", eu entendo o movimento político que reivindica direitos específicos para gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, e não a orientação sexual de quem quer que seja. Creio que aquilo que uma pessoa adulta faz na cama com outra pessoa adulta é um assunto privado, que não diz nada sobre o seu caráter ou sobre o papel público desempenhado por essa pessoa. Tenho horror a qualquer tipo de moralismo sexual à la Bolsonaro e, portanto, restrinjo-me aqui a questões de interesse público, mesmo porque o movimento gayzista é composto tanto por homossexuais quanto por heterossexuais. E, além disso, assim como há heterossexuais gayzistas, há também homossexuais não-gayzistas ou mesmo anti-gayzistas. (Como exemplo do último caso, remeto o leitor a este excelente artigo de Justin Raimondo, um homossexual norte-americano que critica o movimento gay por sua pretensão de falar em nome de todos os homossexuais e por seu proselitismo político). Minha questão, portanto, é a politização do homossexualismo.

Mas o fato mesmo de que eu tenha precisado fazer tais ressalvas num artigo crítico ao PL 122-06 mostra que, antes mesmo de ser aprovada, a dita lei anti-homofobia já vem sendo usada como instrumento de chantagem política pelo lobby gayzista, que, por meio do uso indiscriminado e acusatório do termo "homofobia", tem conseguido lançar um estigma negativo sobre toda e qualquer crítica ao movimento político ou à conduta homossexual, mesmo que feita de forma pacífica e bem-educada. Se o PL 122-06 for mesmo aprovado, um texto como esse, por exemplo, poderá facilmente ser carimbado de "homofóbico".

Tecnicamente falando, "homofobia" deriva de "homoerotofobia", termo cunhado por Wainwright Churchill em Homosexual Behavior Among Males (1967) para descrever uma patologia de cunho emocional. Na década de 1970, a palavra "homofobia" foi popularizada por K. T. Smith e, sobretudo, por George Weinberg, que, no livro Society and the Healthy Homosexual (1972), deu a definição clássica do conceito: o sentimento de medo e ódio em relação a homossexuais, a ponto de conduzir à violência criminosa e, no limite, ao homicídio. 

"Homofobia", portanto, deveria caracterizar exclusivamente aquelas pessoas que, tomadas por um ódio patológico, são capazes de cometer crimes contra homossexuais. Mas, no Brasil, o termo vem sendo usado das maneiras mais elásticas e oportunistas pelo movimento LGBT, cujos membros não parecem demonstrar nem sinal da louvável honestidade com a qual um célebre militante gayzista norte-americano, Ricton Norton, comentou certa vez sobre a palavra: "Eu admito que, no uso corrente, o conceito de homofobia é, muitas vezes, nada mais que uma metáfora política usada para castigar pessoas que não gostam de homossexuais" (ler aqui - grifos meus).

Uma lei anti-homofobia só seria então cabível num país em que os homossexuais estivessem sendo alvos constantes e reiterados de crimes de ódio, constituindo, assim, uma minoria perseguida e fisicamente ameaçada de extinção. Será esse o caso no Brasil? Os homossexuais seriam um grupo ameaçado como, por exemplo, os judeus na Alemanha de Hitler, os albinos na Tanzânia ou os cristãos na China de Mao Tse Tung?

Antes de examinar alguns dados estatísticos, diria que apenas o bom senso já recomendaria uma resposta negativa à questão acima: os homossexuais não são um grupo ameaçado no Brasil. Pense-se, por exemplo, nas gigantescas e bem financiadas passeatas em comemoração ao dia do orgulho gay, que atraem milhões de pessoas às ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro, e que recebem uma cobertura exaustiva dos veículos de comunicação. Dá para imaginar os judeus fazendo algo do tipo na Alemanha nazista? Ou, então, pense-se nas performances de travestis e drag queens exibidas em programas televisivos de auditório, assistidos por idosos e crianças nas tardes de domingo. Os leitores acreditam que um grupo efetivamente perseguido gozaria de tal liberdade? Pense-se, ainda, na Rede Globo de televisão, onde não há uma só de suas últimas novelas de horário nobre que não conte com, no mínimo, um personagem homossexual. Pense-se nos programas de debates nos canais a cabo, onde gays e defensores dos direitos gays constituem sempre maioria contra os críticos, usualmente representados por figuras toscas e intratáveis como o deputado Jair Bolsonaro. Pense-se, enfim, no Big Brother!

Em suma, se os homossexuais são perseguidos no Brasil, trata-se de uma perseguição bastante sui generis. De todo modo, para que minha afirmação não seja tomada por mera opinião subjetiva, convido o leitor a meditar sobre alguns números.

Segundo dados divulgados pelo próprio Grupo Gay da Bahia, uma das mais influentes entidades gayzistas, o número total de homossexuais assassinados entre os anos de 1980 e 2007 foi de 2.775 (ver aqui). Se considerarmos que, segundo o Mapa da Violência 2010, o número total de brasileiros assassinados (sem levar em conta sua orientação sexual) apenas no ano de 2003 foi de 51.043, percebe-se que o número de homossexuais mortos é relativamente insignificante. Afinal, o número total de brasileiros assassinados durante um único ano é quase 20 vezes maior que o número de homossexuais assassinados ao longo de 27 anos. Mas vejamos outra comparação. 

Ainda segundo o Grupo Gay da Bahia, 95 homossexuais foram mortos no ano de 2007. Ora, o Mapa da Violência nos mostra que, naquele mesmo ano, cerca de 48.000 brasileiros foram assassinados. Ou seja, em relação ao número total de homicídios ocorridos no país em 2007 (48.000), o número de homossexuais assassinados (95) representa menos do que 0,2% daquele total. E isso tudo na suposição de que os homossexuais mortos, segundo os dados do próprio movimento gay, tenham sido realmente mortos por causa de sua orientação sexual. Pode-se muito bem imaginar, por exemplo, que, dentro daquele total de 2.775, vários desses assassinatos tenham sido cometidos por homossexuais contra homossexuais, ou devido a razões alheias à homossexualidade (dentre as quais a exposição a ambientes de risco, tais como locais de prostituição, bocas de fumo etc.). Marcelo Cerqueira, membro do Grupo Gay da Bahia, admitiu, por exemplo, que os crimes de ódio e assassinatos a homossexuais são, em sua maioria, cometidos por garotos de programas (logo, homossexuais eles próprios). Ver aqui.

É claro que não se pode admitir que nem mesmo um único homossexual seja assassinado, mas o fato é que as estatísticas desmentem a alegação de que os gays constituem um grupo cuja sobrevivência está gravemente ameaçada. O que se pode dizer com certeza é que, assim como todos os seus compatriotas heterossexuais, os homossexuais brasileiros também estão ameaçados pela violência absurda que assola o país, e cujas estatísticas (em tempos teoricamente de paz!) chegam a suplantar estatísticas de guerra. Mas isso nada tem a ver com homofobia. Tem a ver, entre outras causas, com a vergonhosa atuação de uma justiça inepta e corrupta, que liberta homicidas a torto e a direito, gerando um clima de impunidade que, esse sim, é responsável direto pela violação dos direitos dos cidadãos (homossexuais e heterossexuais).

Mas os gayzistas sabem perfeitamente que a homofobia não é um problema no Brasil, e que a sociedade brasileira tem sido, já há bastante tempo, tolerante em relação ao homossexualismo. A retórica anti-homofobia é apenas um subterfúgio para ocultar um combate contra aquilo que eles chamam de "heteronormatividade" - a norma que garantiria o predomínio da heterossexualidade entre os seres humanos. Segundo o discurso gayzista, o "viés" heterossexual das instituições sociais não é uma predileção natural, decorrente da própria biologia humana, mas uma imposição violenta por parte de um setor social opressor e intolerante. Filhos de um híbrido de marxismo com a chamada "esquerda nietzscheana", os gayzistas brasileiros acreditam que tudo é política e vontade de poder, e que a heterossexualidade é uma ideologia. Ver, por exemplo, apenas um pequeno trecho da cartilha sobre "Gênero e Diversidade Sexual na Escola", que o MEC lançou em 2007, através da SECAD (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade):



"As políticas educacionais precisam levar em conta as discussões acerca da função social da escola na construção de masculinidades e feminilidades contrapostas ao  modelo convencional, masculino, heteronormativo, branco e de classe média".


Trata-se, como leitor pode notar, da mais pura e rasteira ideologia marxista da luta de classes. Sobra até para a classe média!


Movidos por essa visão distorcida, e acreditando ser necessário combater uma ideologia com outra, muitos homossexuais gayzistas acabam fazendo de sua própria sexualidade uma bandeira política, chegando por vezes à ostentação agressiva e mal-educada, menos porque estejam espontaneamente demonstrando o que sentem e mais para chocar e afrontar os representantes da "heteronormatividade" (ver, por exemplo, o "beijaço contra a homofobia" promovido pelo Grupo Arco-Íris).

Os líderes e mentores intelectuais do movimento gayzista sabem bem explorar (e mesmo incentivar) o ressentimento e a sensação de inadequação experimentados por muitos homossexuais, e causados pelo fato inescapável de que a homossexualidade, se sempre esteve presente ao longo da história, jamais será a norma nas sociedades humanas. Os homossexuais sempre serão uma minoria necessariamente excluída do modelo tradicional de família. É claro que essa minoria deve ser respeitada e ter seus direitos civis garantidos como os de qualquer outro cidadão. Eis aí precisamente um dos grandes méritos das democracias ocidentais modernas: a garantia de direitos para os grupos minoritários dentro do conjunto da sociedade. Mas parece que tal garantia não é o suficiente para os gayzistas. Nem todo mundo tem o espírito forte para bancar a opção por um estilo de vida que fuja à norma, mantendo a cabeça erguida, sem auto-vitimizar-se ou revoltar-se contra o mundo. Os gayzistas aproveitam-se dessa fraqueza para propor uma vingança contra a "heteronormatividade". Eles querem punir seus representantes e fazer com que o conjunto da sociedade aceite como norma os padrões de uma minoria insatisfeita e revoltada. Sob o rótulo "homofobia", os gayzistas pretendem juntar num mesmo saco toda crítica à conduta homossexual (mesmo que fundamentada em sólidos princípios morais, religiosos ou filosóficos, e que vise o bem do receptor) e a violência criminosa contra os homossexuais. Enquanto manifestações da heteronormatividade, um padre que lê a Bíblia, uma mãe que sonha em ver a filha subir ao altar e um sujeito que agride gays com lâmpadas fluorescentes são, do ponto de vista gayzista, equivalentes. E não estou exagerando.


(Ir para Parte II)

quarta-feira, 2 de março de 2011

E Rui Barbosa pode, finalmente, descansar em paz

Parecendo dar-me razão sobre o que escrevi a respeito de Emir Sader não estar qualificado para a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, a ministra da Cultura Ana de Hollanda - mesmo que por outras razões - acaba de publicar a seguinte nota na página oficial do MinC: 


"Comunico que o senhor Emir Sader não será mais nomeado presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa. O nome do novo dirigente será anunciado em breve" (ler aqui).


Pelo menos por enquanto estamos livres deste apedeuta universitário.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Nota adicional sobre o invasor da Casa de Rui Barbosa

A propósito do assunto tratado no post anterior,  gostaria de fazer uma denúncia aqui. Em 2009, o jornalista e blogueiro Reinaldo Azevedo já havia acusado a omissão de Emir Sader em relação a mensagens de apologia ao nazismo e antissemitismo enviadas por leitores ao blog que Sader mantém numa tal de Agência Carta Maior (ler aqui e aqui). Na época, Emir Sader escrevera uma série de textos onde acusava Israel de estar perpetrando um "novo holocausto".

Mais de um ano depois, em maio de 2010, o "Emir dos Crentes" não apenas não retirara as mensagens pró-nazistas, como escrevera novos textos de incitação ao ódio contra Israel, seguidos, como era de se esperar, de novos comentários racistas e antissemitas por parte de seus leitores (com aprovação do dono do blog, que, enquanto tal, é moderador dos comentários).

No texto intitulado "Israel: novo massacre humanitário?", Sader dizia coisas como: Israel construíra muros na Faixa de Gaza para "não apenas tornar inviável a vida e a sustentabilidade econômica da Palestina, mas humilhar a população que lá resiste". Ou: Gaza está "cercada como se fosse um campo de concentração pelas tropas do holocausto contemporâneo". E ele concluía o texto da seguinte maneira:

"Quem representa perigo para a paz na região e para a paz mundial? O Irã ou Israel? Quem perpetra massacres após massacres contra a indefesa população palestina? Quem impede que a decisão da ONU seja colocada em prática, senão Israel e os EUA, bloqueando a única via de solução política e pacifica para a região – o reconhecimento do direito palestino de ter seu Estado? Quem comete os piores massacres no mundo de hoje, senão aqueles que foram vítimas do holocausto no século passado e que se transformaram de vítimas em verdugos?"

Abaixo do texto, quase como um resultado do tom goebbeliano usado pelo autor, os  "crentes do Emir" comentavam coisas do tipo (mantenho a linguagem e o mau português usado: os leitores daquele blog têm a quem puxar):

"os EUA que levem eles [os israelenses] para o deserto Americano, bando de invasores, e assassinos que se escondem atrás de uma bandeira do holocausto!!!!!!!!" (Marcos, 04/06/2010).

 "Está na hora do mundo começar a ver quem é quem. Esses judeus devem ser levados para a lata de lixo da história. São mostros e aqueles que os apoiam (EEUU) são ainda piores. Esses malditos têm que ouvir nossos gritos" (Luiz Che, 04/06/2010).


"A ONU precisa agir, os judeus já causaram duas guerras mundiais, até quando vamos assistir eles causarem a terceira??????" (Luis José Ariosto Pereira Silva, 03/06/2010).


"VIVA O HAMAS !" (Chauke Stephan Filho, 02/06/2010).


"COMO O HITLER FOI INCOPETENTE, QUE DEUS O TENHA ... SE TIVESSE FEITO O SERVIÇO DIREITO, HOJE NÓS ESTARÍAMOS LIVRES DESSA 'RAÇA DE VÍBORAS'" (Antônio Alberto Pe Alberto Mendes Ferreira, 02/06/2010).

Esses são apenas alguns exemplos entre muitos outros comentários de mesmo teor, todos ainda hoje (18/02/2011) exibidos no blog de Emir Sader.

Estamos diante de um caso sério. Como previsto no artigo 20, parágrafos 1 e 2, da Lei n. 7716 de 5 de janeiro de 1989, o racismo e a apologia ao nazismo (praticada, induzida ou incitada) são crimes inafiançáveis, sujeitos a pena de 1 a 3 anos de reclusão. O Ministério Público precisa agir contra o blog deste senhor que ora ocupa a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa. O blogueiro deveria ser obrigado a retirar o material criminoso ou, então, sujeitar-se à pena da lei.

De todo modo, é uma vergonha nacional o fato de termos na presidência de uma importante fundação cultural alguém que se mostra conivente com aquele tipo de mensagem, que vai contra todos os compromissos assumidos pelo Brasil em diversos tratados internacionais, que incluem o combate a toda forma de discriminação racial e o repúdio ao nazismo, em particular.

Afirmo então com todas as letras: Emir Sader não está qualificado para ocupar o cargo para o qual foi designado, e que ora conspurca e emporcalha.

Para os leitores que quiserem denunciar aquele blog por prática, indução ou incitação ao antissemitismo e à apologia ao nazismo, é possível fazê-lo neste link do Ministério Público Federal. A denúncia pode ser feita por qualquer pessoa, sob a condição de estar dentro das atribuições do MPF, o que é o caso ("racismo pela internet").

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

"Quem entrou com os sapatos sujos de lama na minha casa?" (Rui Barbosa, revirando-se no túmulo)

"O ilustre Emir dos Crentes deve aprender história no curso primário antes de escrever 'Em Defesa da História' nos jornais burgueses de Brasília, Rio e São Paulo, essas mesmas folhas que acusa de colaborarem no 'festival do pensamento único que assola nossa imprensa'. Mas talvez tenha razão: o festival de pensamento único que assola nossa imprensa e o 'clima de impunidade' com idéias estrambólicas é a mesma orgia ideológica de que o comendador está, precisamente, gozando com seus comparsas..."
 (José Osvaldo de Meira Penna, Jornal da Tarde, 1999)

E seguindo o projeto que seus principais ideólogos determinaram há mais de 30 anos - e que vinha na esteira do revisionismo da esquerda mundial, após a revelação dos horrores da "ditadura do proletariado" russa - o PT dá mais um passo rumo à politização completa da cultura e à doutrinação ideológica em tempo integral. Refiro-me precisamente à nomeação, pela ministra da Cultura Ana de Hollanda, de Emir Sader para presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa. Quem é Emir Sader? Recordar é viver. Para muitos que, como eu, o supunham sepultado, ele ressurge como um zumbi de clip do Michael Jackson. Nada como sucessivos governos do PT para revigorar e resgatar a nata da sociedade brasileira: Collor, Sarney, Zé Dirceu e agora... Emir Sader - o "Emir dos Crentes", como o chamou José Osvaldo de Meira Penna em artigo, aliás, memorável (ver aqui).

Emir Sader é algo como um Australopithecus intelectual: ele recusa-se a sair da Guerra Fria, e move, ainda hoje, um combate ideológico incansável contra o capitalismo yankee. Sader já escreveu muitos textos contra o capitalismo (aliás, ele só escreve sobre isso, seja qual for o assunto manifesto do texto. Sader deve ser capaz de criticar o capitalismo até no cartão de natal que manda para a tia-avó), chegando, inclusive, a exaltar Hugo Chavez como um defensor dos pobres e excluídos venezuelanos contra as "elites" capitalistas e imperialistas.

Emir Sader é um herdeiro da tradição da esquerda hegeliana, de gente como Feuerbach, Marx, Engels e afins. Como todos aqueles pensadores, Sader também vê um sentido na história. Mas, ao contrário deles, o sentido da história para Sader é bem menos grandiloqüente. O ponto culminante da história humana já não será a sociedade sem classes ou a desalienação dos homens. Para Sader, o ponto culminante da história é a instauração de uma ordem social que obedeça ipsis litteris as diretrizes estabelecidas nos congressos internos do PT. Em lugar da sociedade sem classes, Sader sonha com a sociedade sem oposição.

Emir Sader é mais que um intelectual orgânico. Ele é um intelectual intestinal, um intelectual visceral, um intelectual de partido. Ele é a encarnação máxima desse escandaloso oxímoro que, no Brasil de hoje, tem se tornado cada vez mais freqüente: Sader é e sempre foi um intelectual do PT. (Aliás, como ele mesmo informa em seu Currículo Lattes, Sader é um "especialista em Lula", seja lá o que isso signifique).

No caso de Sader, de fato, nem se pode chegar a falar, como Julien Benda, em "traição dos intelectuais". Sader só poderia ser considerado um "intelectual" no sentido muito amplo que o termo ganhou hoje em dia, especialmente no Brasil, incluindo desde apresentadores de televisão e jornalistas, até, eventualmente, cantores, rappers e - por que não? - drag queens. Portanto, Sader não está propriamente traindo nada. Ele está fazendo exatamente aquilo que "intelectuais" como ele foram designados para fazer: guerra cultural, doutrinação ideológica, manipulação psicológica - em suma, a modelagem espiritual da sociedade, para que esteja "preparada" para aceitar docilmente os desígnios do governo. O problema, pois, não é realmente de Emir Sader. O problema é de uma sociedade que, por absoluta falta de parâmetros, o toma por intelectual legítimo, permitindo que se delegue a ele a direção de uma importante instituição cultural.

Em suma, não é difícil perceber que Emir Sader não quer refletir sobre ou compreender o que quer que seja, ele quer transformar a realidade para que ela se encaixe mais facilmente nos planos civilizacionais (e quiçá cósmicos! Recorde-se o incômodo de Lula com o fato de a Terra ser redonda) do PT. Ser "intelectual", no sentido em que o é Emir Sader, significa, na realidade, ser um agente de transformação social.

A entrevista em que Sader explica seus planos futuros para a Fundação é muito ilustrativa (ver aqui). Para começar, ele diz que quer incentivar a intelectualidade a produzir uma reflexão "mais contemporânea" sobre o Brasil. E, mais uma vez, percebe-se logo a distância que separa a atividade intelectual legítima - que, recordo Benda mais uma vez, recusa-se a sacrificar a busca pelos dados universais e permanentes da realidade às contingências temporais e interesses pragmáticos - daquilo que Sader chama de intelectualidade. 

Sader acha que o pensamento, para ser relevante, ter que ser "atual". Ou seja, a atividade intelectual, tal como concebida por Sader, não se distingue fundamentalmente da moda e do show business. E, em segundo lugar, a atividade intelectual tem que refletir o contexto espaço-temporal em que é exercida - no caso, o Brasil contemporâneo. Ou seja, a intelectualidade que adentrar a Casa de Rui Barbosa terá que produzir alguma coisa atual e brasileira, o equivalente do Pré-Sal na esfera da cultura.

Mas não é só isso. Sader exige mais da intelectualidade. Diz ele:

"Existe uma nova maioria política e social no país, que eu diria que é progressista, mas que ainda é sensível a temas obscurantistas, como se viu na campanha com a discussão sobre o aborto. É preciso consolidar essa maioria política e social com uma nova sociabilidade, novos valores, de solidariedade. É preciso tratar de ter políticas culturais que consolidem na cabeça das pessoas as razões pelas quais o Brasil está melhor. Ajudá-las a tomar consciência social"

Aí fica claro o sentido da história para Sader. Ele está convicto que existem certos temas "obscurantistas" que, a despeito de todo o progresso social, econômico e moral trazido pelo governo do PT, ainda (!!!) persistem na mentalidade de muitas pessoas. Ou seja, como os velhos filósofos da história, o intelectual governamental projeta uma progressão histórica e, colocando-se no ponto culminante de tal escalada, avalia, com superioridade, os supostos avanços e retrocessos de todos que vêm vindo atrás.

Ele não gosta da discussão sobre o aborto e quer nos convencer de que o mundo ideal será aquele em que ninguém mais se preocupe com isso. Os que insistirem no tema receberão a pecha de "obscurantistas" (será que Sader realmente sabe o significado da palavra?) e serão banidos do paraíso terreno prometido por Emir Sader, o Messias.

Sader nem se dá conta de que uma grande parcela da sociedade brasileira (talvez a maioria) é contra o aborto e, nisso, ela está em plena harmonia com a nossa lei penal, que o pune como delito. A questão só surgiu durante a campanha eleitoral porque a então candidata Dilma Roussef, agora presidente e chefe de Sader, mentiu sobre sua posição, com fins eleitoreiros. Uma boa parcela da população percebeu a fraude mas, infelizmente, graças à atuação de "intelectuais" como Sader, eles foram satanizados e tidos como obscurantistas, o que serviu para intimidar o restante da sociedade.


Sader não tem nenhuma vergonha em admitir que pretende promover políticas culturais "que consolidem na cabeça das pessoas as razões pelas quais o Brasil está melhor". Isso no meu tempo chamava-se lavagem cerebral. Sader quer nos impor a marteladas e gritos de "aprende desgraçado!" (método chamado eufemisticamente de "consolidação") duas idéias: a primeira, a de que o Brasil está melhor (e quem ouse discordar disso será sumariamente rotulado de obscurantista, elitista, direitista ou coisa pior); a segunda, a de que as razões da melhora tampouco podem ser discutidas; Emir Sader, por meio de suas políticas culturais, é quem irá determiná-las (digo, "consolidá-las"). 


Enfim, o sujeito diz uma coisa dessas e ninguém parece achar nada demais. E já que, provavelmente, ninguém irá manifestar-se sobre o assunto, sinto-me na obrigação de responder a Sader, nem que seja por desencargo de consciência: "Vai consolidar coisas na cabeça da senhora sua progenitora! Comigo não, violão!"

Por fim, destaco apenas mais um trecho da entrevista. Como bom intelectual orwelliano, funcionário exemplar do Ministério da Verdade, Sader diz, em castiça novilíngua, que a Fundação promoverá um "pluralismo" de idéias. Em seguida, ele menciona alguns possíveis palestrantes convidados: Noam Chomsky, Marilena Chauí, José Luis Fiori, Eduardo Galeano, István Mészáros. 

Como se pode ver, haja pluralidade. Pluralidade assim, só mesmo nas reuniões do Comintern... O "debate plural de idéias", na novilíngua sadérica, significa isso: um encontro de viúvas da URSS.

Pobre Rui Barbosa (e saudades dos tempos em que o Brasil contava com intelectuais do porte de um Rui Barbosa)! Deve estar tendo espasmos no túmulo. Jamais ele recebeu em casa um hóspede tão espaçoso, inoportuno e mal-educado.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

As Eleições e o Aborto

Eis que surge, enfim, um assunto político na corrida presidencial: o aborto. Com ele, vêm à tona na disputa eleitoral personagens que, de outro modo, permaneceriam ausentes: os religiosos e conservadores. Sim, eles existem e eles votam!


A posição do PT é clara: o aborto é uma questão de saúde pública e de direitos das mulheres.   Como consta do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), um dos objetivos do governo Lula em relação aos direitos das mulheres é: "Apoiar a aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos". O PNDH-3, recorde-se, foi assinado pelo Presidente da República e pelos seus ministros, dentre os quais a Sra. Dilma Roussef, candidata à sucessora de Lula no mais alto cargo da República.


Depois de ter sofrido críticas, o governo alterou ligeiramente o texto do PNDH-3 em diversos pontos. No que se refere ao aborto, o texto deixou de falar abertamente em descriminalização, sugerindo apenas se tratar de uma questão de saúde pública (um dos grandes entusiastas da legalização do aborto era o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão).


Mas a mudança no texto não significa uma mudança de projeto: a preocupação do governo permaneceu sendo com as mulheres, especialmente as mais pobres, que seriam levadas a realizar abortos em clínicas clandestinas, com risco para sua saúde e integridade física. O plano do governo para o aborto se insere nas chamadas "políticas de combate à desigualdade" (no caso, de gênero e de classe). Note-se que, em tais políticas, a vida do feto não é, em nenhum momento, objeto de interesse ou preocupação. Parte-se do pressuposto de que o feto não é uma vida independente, autônoma, sujeita de direitos individuais. O feto é considerado mera extensão da mãe, que, portanto, tem total liberdade para "decidir sobre seu corpo", mesmo que essa decisão implique no extermínio do feto (note-se ainda que a desigualdade gritante de condição entre um feto indefeso e adultos que decidem sobre sua existência não é contemplada, por sua vez, pelas "políticas de combate à desigualdade").


A Sra. Dilma Roussef nunca questionou a posição do governo sobre esse assunto. Pelo contrário, ela a endossou em diversas ocasiões. Em outubro de 2007,  por exemplo, numa sabatina no jornal Folha de São Paulo, ela disse com todas as letras: "eu acho que tem de haver a descriminalização do aborto" (ver aqui). Já em 2009, em entrevista à revista Marie Claire, ela voltou a afirmar: "Abortar não é fácil pra mulher alguma. Duvido que alguém se sinta confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização. O aborto é uma questão de saúde pública (...) Como saúde pública, achamos que tem de ser praticado em condições de legalidade" (ler aqui).


Recentemente, temendo, enquanto candidata, perder os votos dos cristãos (evangélicos ou católicos), a Sra. Dilma mudou o discurso. Passou a se dizer, pessoalmente, contrária ao aborto e "favorável à vida". Mas, mesmo mudando o discurso, a preocupação com o destino do feto continuou ausente. O argumento da Sra. Dilma passou a ser agora o de que o aborto é "uma violência contra a mulher" (ver aqui). Trata-se de uma afirmação particularmente bizarra. Toda violência é uma ação e, portanto, pressupõe um sujeito que a comete. Se o aborto é uma violência contra a mulher, quem é o sujeito de tal violência? Quem a comete? Que eu saiba, são a própria mulher e o médico aborteiro. Logo, se o aborto é uma decisão da mulher sobre seu próprio corpo, como é possível que ele seja considerado uma violência contra essa mesma mulher? O raciocínio da Sra. Dilma é um primor de obtusidade e falta de lógica.


Ou seja, ainda que a Sra. Dilma Roussef se diga agora contrária ao aborto - para não desagradar aos religiosos -, suas razões para tanto não são as mesmas que as razões tradicionalmente apresentadas pelos religiosos. Enquanto esses últimos consideram o aborto uma violência contra o feto, a Sra. Dilma diz que o aborto é uma violência contra a mulher. Enfim, a candidata petista mudou de posição, mas não mudou tanto assim. Ao afirmar ser contrária ao aborto em nome da defesa da mulher (antes que do feto), ela produz um híbrido monstruoso (fundado num equívoco lógico) entre sua antiga posição e sua posição atual, de modo a não ter que se comprometer definitivamente com nenhuma das duas. Daí o uso recorrente que ela faz de expressões vazias tais como "isso é uma questão de saúde pública" (e a imprensa deveria lhe perguntar: o que isso significa, saúde pública para a mãe ou para o feto?), "sou favorável à vida" (e a imprensa deveria lhe perguntar: refere-se especificamente à vida do feto?), "sou pessoalmente contra o aborto" (e a imprensa deveria lhe perguntar: mas, se for eleita presidente, pretende ou não encaminhar uma lei que o descriminalize, como consta na pauta do seu partido?).


Até o momento, a Sra. Dilma Roussef não se explicou sobre a mudança de posição, nem nada lhe foi perguntado diretamente. Apesar de suas declarações passadas, a grande imprensa não hesitou em qualificar de "boatos" (expressão usada de maneira descritiva e supostamente neutra, como se não fosse exatamente o argumento do PT para desqualificar as acusações) as sugestões de que a Sra. Dilma tenha sido favorável ao aborto, ao menos em determinado momento de sua vida pública (ver, por exemplo, essa manchete do Globo Online). Tudo se passa como se ela tivesse sido sempre contrária à legalização do aborto. Tampouco a Sra. Dilma deixou claro se se trata de uma mudança de ponto de vista apenas pessoal - que, sem dúvida, seria um direito seu, contanto que declarado publicamente - ou de uma transformação completa da visão que o PT tem da sociedade. Teria a Sra. Dilma se distanciado do posicionamento histórico do partido? Se esse for o caso, ela deveria vir à público esclarecer a questão. Como, até o momento, a candidata se comporta de maneira dissimulada e melíflua sobre o assunto, o eleitor tem todo o direito de pensar que se trata de uma fraude. 


Enfim, parece-me claro que a Sra. Dilma está sendo oportunista e adotando um discurso eleiroreiro, de última hora. Trata-se simplesmente de desonestidade eleitoral. Tudo leva a crer que a visão da Sra. Dilma continua sendo a visão tradicional do seu partido e que sua repentina mudança de opinião é conversa mole para enganar os eleitores desavisados. Enquanto ela não renegar a assinatura que imprimiu no PNDH-3 ou prestar contas das declarações do passado, penso que é prudente imaginar que, uma vez eleita, ela fará passar um projeto de lei que aprove a legalização do aborto.


Esse é o lado ruim da questão, o fato de lidarmos com uma candidata desonesta. Mas, como eu disse no início, penso que a questão do aborto é de fundamental importância para a política nacional. Pela primeira vez nessas eleições surge um tema capaz de mobilizar visões de mundo realmente antagônicas. A posição do PT - digo, a posição real, e não a farsa montada de última hora para atrair votos - é uma posição claramente progressista. Ela está alinhada com o que pensa certa parcela da sociedade. No meio universitário e artístico, por exemplo, a visão progressista tende a ser largamente  majoritária. É ali, provavelmente, que o PT encontrará ouvidos solidários ao projeto de legalizar o aborto, associado, para essas pessoas, ao ideário feminista da emancipação da mulher.


Contra tal visão, no entanto, uma outra grande parcela da sociedade - dentro da qual se destacam os cristãos - defende uma posição conservadora. Para essa parcela, o aborto não é, de forma alguma, um direito da mulher, mas sim um crime hediondo, uma vez que o feto é considerado um ser vivo desde o momento da concepção. 


O antagonismo concreto revelado pela questão do aborto é, então, muito simples: trata-se de uma disputa entre o progressismo e o conservadorismo ou, em outras palavras, entre "esquerda" e "direita". Esse antagonismo não tinha surgido até o presente momento e, por isso, fico perplexo ao constatar que boa parte da imprensa oficial venha tratando a questão do aborto como um desvio das questões 'centrais' da disputa presidencial, como se se tratasse de uma intromissão indesejada da esfera moral e religiosa sobre o mundo da política. 


Ora, parece-me, ao contrário, que nada pode ser mais político do que o confronto entre progressistas e conservadores, entre esquerdistas e direitistas. Essas duas forças políticas têm estado presentes ao longo de toda história moderna. Nos EUA, por exemplo, o combate entre elas é franco e vigoroso. Lá, os liberals correspondem ao que estou chamando de "progressistas", enquanto os conservatives seriam, literalmente, os nossos "conservadores". Também lá nos EUA, são os liberals quem costumam defender a legalização do aborto e as tais políticas contra a desigualdade, ao passo que os conservatives tendem a defender os valores religiosos e o direito inalienável à vida do feto enquanto indivíduo autônomo.


Nos EUA, as duas correntes se digladiam em campo aberto. Há meios de comunicação explicitamente liberals, como há os abertamente conservatives. O debate é franco e sem dissimulação. Uns e outros acusam-se mutuamente, fazem troça, debocham, discutem, em suma, confrontam-se democraticamente, sem não-me-toques e fingimento.


No Brasil as coisas não são assim. Isso se dá porque, embora uma imensa parcela da população seja conservadora (talvez a maioria da população brasileira), a quase totalidade dos formadores de opinião é constituída por progressistas. Os formadores de opinião costumam vir do meio universitário, especialmente das ciências humanas (de áreas como direito, comunicação social, ciências sociais, história, psicologia, pedagogia etc.), que são amplamente progressistas. Portanto, a visão de mundo progressista, ainda que numericamente minoritária, aparece como politicamente default, sendo a posição conservadora relegada ao estatuto de aberrante ou ultrapassada. "Conservador" e "direitista", no Brasil de hoje, se tornou uma ofensa, antes que uma posição política legítima e auto-consciente. 


Daí a pouca importância dada, na grande mídia, à questão do aborto. Você não verá, por exemplo, um jornalista da TV Globo perguntando diretamente à Sra. Dilma Roussef: "a senhora mudou de opinião em relação ao aborto? A senhora renega o PNDH-3?". O problema do aborto veio à tona de forma subterrânea, difundindo-se sobretudo entre a população religiosa (conservadora e direitista) via internet (através de blogs, twitter, orkut etc.). 


Com efeito, se dependêssemos exclusivamente da imprensa oficial, o tema do aborto nunca teria surgido nessas eleições e, portanto, o confronto - essencial a toda democracia - entre as forças progressistas e conservadoras permaneceria reprimido e sufocado pela pauta oficial estabelecida pelos grandes veículos de comunicação, de comum acordo com os candidatos. 


Foi isso que se viu nos debates eleitorais e na cobertura jornalística profissional: pouca discussão política, confrontos engessados, temas pontuais e irrelevantes tratados em destaque. Acontece que esse era exatamente o plano do PT para a disputa eleitoral de 2010. A ausência do confronto político tinha sido comemorada pelo próprio Presidente da República, ao celebrar o fato de que as eleições 2010 seriam disputadas apenas por candidatos de esquerda, sem a presença de nenhum "troglodita de direita" (ler aqui).  


Note-se, por incrível que pareça, que o Presidente disse isso como se a ausência da direita fosse um sinal claro de avanço da democracia. Democracia, para o Presidente da República, significa a atuação exclusiva e hegemônica de uma única força política. O grave é que, de um jeito ou de outro, o establishment midiático parecia corroborar a posição do Presidente. E até mesmo a oposição. Não fosse a pressão exercida quase que invisivelmente pelos religiosos, e o candidato José Serra continuaria disputando com a outra candidata o troféu de progressista do ano. Os religiosos forçaram-no a se inclinar para a direita, coisa que ele o faz - devido ao seu passado e a sua timidez - ainda com muita relutância. Pelo menos, no que se refere à questão do aborto, parece que o Sr. José Serra manteve a coerência. Ele sempre foi contrário à legalização e, portanto, conservador sob esse aspecto. 


No Brasil, o conservadorismo não goza de expressão política e midiática. Foi o tema do aborto que conseguiu lhe dar alguma visibilidade, graças à internet. Não fosse a internet, e a disputa eleitoral permaneceria pautada pelos valores do stablishment progressista.


O mínimo que a imprensa oficial deveria fazer - e não faz - é esclarecer sobre a natureza essencial da divergência: entre progressistas e conservadores. A imprensa  não deveria corroborar a fraude petista, deixando de abordar frontalmente o tema. Ao contrário, ela deveria forçar a candidata petista a se explicar, deixando claro que, caso contrário, o eleitor deveria estar ciente de que a Sra. Dilma Roussef é mesmo favorável à legalização do aborto, porque essa é uma plataforma do seu partido. 


Se isso tivesse sido feito, teríamos então duas alternativas: ou a candidata do PT seria forçada a assumir abertamente sua posição, arcando com as conseqüências eleitorais que tal posição pudesse ocasionar - "sou favorável à legalização, e pretendo encaminhar um projeto de lei que a possibilite" - ou, então, esclarecer francamente os motivos que a fizeram abandonar aquela posição. Seja como for, o eleitor só teria a ganhar. 


Assim é a democracia: um confronto honesto entre visões de mundo e projetos políticos divergentes, entre os quais o eleitor, informado por uma imprensa responsável, deverá optar por livre e espontânea vontade. Mas no Brasil, assistimos ao triste espetáculo de uma candidata mentindo aos olhos de todos sem que ninguém ouse confrontá-la. Temo que, mais uma vez, tenhamos um segundo turno onde perguntas básicas continuarão por serem feitas.   


Espero estar errado, mas creio que nem o candidato José Serra nem tampouco os tele-jornalistas farão diretamente à Sra. Dilma Roussef a única pergunta que ora importa: "Afinal, por que a senhora mudou de opinião sobre o aborto?". Bastaria ao Sr. José Serra fazer essa pergunta nos debates na TV e, creio, ele seria eleito com certa facilidade.







sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Duplipensamento de Valter Pomar

O "Duplipensamento" é mais um conceito interessante criado por George Orwell em 1984. Nas palavras do próprio autor, duplipensar significa:

"Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar".

Esta técnica faz parte do beabá do bom petista. Há poucos dias, Valter Pomar, diretor nacional do PT, deu uma aula de Duplipensamento em entrevista publicada no site oficial do partido (ler aqui). Além de diretor nacional do partido, Pomar é também responsável pela secretaria executiva do Foro de São Paulo, sendo, hoje, o principal articulador entre o PT e aquela organização.

O tema da entrevista era o XVIº Encontro do Foro de São Paulo, a ser realizado nos próximos dias 10 a 20 de agosto, em Buenos Aires (ver §29 do post PT, FARC e narcotráfico: uma cronologia). Ao ser perguntado sobre um dos tópicos do programa do Foro - um debate sobre a questão da Defesa no continente latino-americano -, Pomar negou que isso tivesse relação direta com o conflito entre Colômbia e Venezuela. Disse  ele: "Este debate já estava planejado antes. A verdade é que a esquerda latino-americana tem uma estratégia baseada na disputa de eleições, na mobilização social e no debate de idéias. Quem aposta numa estratégia de guerra e subversão são os Estados Unidos e os setores mais reacionários da região. O XVI Encontro do Foro de São Paulo será um grande ato em favor da paz, no mundo e na América Latina. E fazer a paz implica construir uma política unificada de Defesa entre todos os países da América Latina" (grifos meus). 

Vejamos o que significa "paz" para Valter Pomar.

Sobre o conflito entre Venezuela e Colômbia, Pomar faz referência a uma nota, emitida no dia 28 de julho pelo Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo (vejam a nota). Nela, os membros do Foro defendem uma solução "negociada" para o conflito entre Colômbia e Venezuela. Em seguida, fazem uma crítica ao ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, por suas acusações de que Hugo Chavez fornecia abrigo às FARC em território venezuelano (acusações amplamente comprovadas por documentos e fotos dos acampamentos). Imediatamente após a crítica a Uribe, a nota elogia Chavez pelo "empenho em cumprir rigorosamente todos os acordos internacionais vigentes, avançar nos processos de integração regional que implicam na cooperação plena entre as nações latino-americanas". Em suma, "negociação", para Pomar e os membros do Foro, designa total apoio a Chavez e repúdio ao governo colombiano.

Mas há mais. Ao ser perguntado sobre uma possível "opinião única" sobre as FARC no Foro de São Paulo, Pomar responde: "Olha, opinião única é coisa de pensamento único. O que eu posso dizer é que a esquerda latino-americana está nas lutas sociais, participa das disputas eleitorais e governa importantes países da região. Em muitos casos, partidos que hoje estão no governo, ontem estavam na luta armada. A transição se deu nos anos 80 e 90, geralmente através de processos de paz negociada". 

Ou seja, "paz negociada", no vocabulário pomarino, significa que grupos armados poderão usar de toda violência que julgarem necessária e, depois de atingidos seus objetivos, serem reconhecidos como força política legítima, esquecendo-se tudo o que fizeram no passado. Isso significa dizer que, quando você, leitor, entrega sua carteira ao assaltante sob a mira de um revólver, você não faz mais do que participar democraticamente de um processo de paz negociada. Quem sabe se, mais à frente, com sorte, você não terá ainda a oportunidade de eleger o seu assaltante para um cargo público?

Pomar não responde diretamente a pergunta sobre a "opinião única" do Foro de São Paulo acerca das FARC, preferindo sugerir indiretamente, mediante ataque a um tal "pensamento único" (que é como o PT e outras organizações de esquerda habituaram-se a chamar o pensamento dito neo-liberal), que há uma multiplicidade de opiniões dentro do Foro. Ora, é fácil ver que essa multiplicidade não existe, pois, na seqüência, Pomar trai a opinião unânime da organização: a luta das FARC é legítima ("partidos que hoje estão no governo, ontem estavam na luta armada", diz Pomar). Tal opinião está expressa com todas as letras no Documento-Base para o XVIº encontro do Foro, onde seus membros, unanimemente, condenam “a cruenta agressão armada de tropas colombianas, respaldadas pela tecnologia e pelos serviços de inteligência dos EUA, em território ecuatoriano, em Sucumbios, no dia 1º de março de 2008” e lamentam a eleição de Juan Manoel Santos, candidato de continuidade do governo Uribe, para a presidência da Colômbia (Leiam aqui).

[OBS: Posteriormente, Santos revelou-se muito menos uribista do que parecia, e o compromisso que o elegeu, qual seja o de acabar de vez com as FARC, foi transigido covardemente].

A velocidade com que afirmações contraditórias alternam-se ao longo de toda a entrevista é estonteante. Poucas vezes se viu um talento tão grande na arte do duplipensar. Depois de negar a existência de uma opinião única sobre as FARC - o que é desmentido pelo documento-base do XVI encontro do Foro -, Pomar avança essa mesma opinião. Mais à frente, volta a dizer que o PT não tem nenhuma ligação política com a guerrilha colombiana, sendo que, na pergunta anterior, havia questionado a ligação das FARC com o narcotráfico, alegando ser um pretexto dos EUA para combater a guerrilha. Diz ele: "Vale citar que as Farc negam ter vínculos com o narcotráfico". Pomar apresenta a negação das FARC como prova adicional da ausência de vínculos entre a guerrilha e o narcotráfico. É como apresentar a opinião de Eurico Miranda como prova de que o Vasco da Gama é o melhor time do mundo.

Ecce homo: Valter Pomar, um petista típico.


Das Virtudes e Vícios do Ceticismo

Em maio de 2012, o autor destas linhas frequentava um curso preparatório para o difícil e concorrido concurso do Itamaraty. Faziam três...