sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Ciência, Política e Religião: o que faltou na crítica de Giannetti

Eduardo Giannetti publica hoje na Folha um artigo que dá o que pensar. Ele tem razão em criticar essa espécie de laicismo histérico a que assistimos diariamente nos veículos de comunicação, cujo fundamento é uma imagem simplória e estereotipada, presa que é de uma ultrapassada narrativa iluminista, da ciência e da religião (ver, sobre isso, o meu artigo Faniquitos Anticlericais). Nesse sentido, dizer que o evangelismo da candidata Marina Silva ameaça a laicidade do Estado é, de fato, uma estupidez e coisa de ignorante - "ciência como superstição", nas palavras do autor.

Por outro lado, Giannetti nada diz sobre a relação de Marina com a grande superstição científica de nossos dias: o ambientalismo catastrofista, um verdadeiro milenarismo científico ligado ao complexo mitopoiético e escatológico do aquecimento global e do apocalipse ambiental previsto pela ciência globalista da ONU e de outras organizações internacionais (ou supra-nacionais). O evangelismo da Marina desvia a nossa atenção do fato de que ela é formada, em termos político-religiosos, menos pelo neo-pentecostalismo do que por uma mistura entre a teologia da libertação ortodoxa e a ecoteologia da libertação contemporânea, representada no Brasil por Leonardo Boff. Trata-se, esta última, de uma crítica ao "antropocentrismo" da teologia católica tradicional, e da proposta alternativa de comunhão entre homem e natureza; de um panteísmo, em suma. (Siga o link.)

Marina Silva é um produto acabado desse contexto, uma espécie de sacerdotisa da igreja de Al Gore e do ambientalismo onuseiro, uma candidata que, por isso, conta fatalmente com a simpatia da elite globalista. Toda a conversa marineira de "crise civilizacional", da urgência frente às mudanças climáticas, da ameaça do fim do planeta, e de um "novo modo de ser" - síntese entre o capitalismo sustentável e um senso global de comunhão (ecumenismo e panteísmo) - é fruto direto do vocabulário do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da ONU e da intelligentsia que o rodeia, tal qual os philosophes iluministas rodeavam os déspotas esclarecidos.

O fundamento simbólico da candidatura Marina Silva encontra-se exemplarmente expresso, por exemplo, no livro The Sacred Depths of Nature, da bióloga norte-americana Ursula Goodenough, onde se propõe a idéia de um "naturalismo religioso" (houve quem falasse em "ateísmo transcendente"). Trata-se da promessa de uma neo-teosofia planetária à la Madame Blavatsky e Alice Bailey - um velho sonho da ONU desde os tempos de Robert Müller. Na obra, a autora procura revelar o componente sagrado da interpretação científica da Natureza, interpretação que ela chama de "Epopéia da Evolução", e cuja representação iconográfica perfeita seria o filme Avatar, sucesso de bilheteria do diretor James Cameron.

Como se sabe, o filme faz a apologia de um imanentismo religioso, de tipo Nova Era, onde os nativos humanóides Na'avi vivem em harmonia com a natureza de seu planeta, Pandora, reverenciada por eles como a Deusa Eywa (uma espécie de Gaia ou "Mãe-Terra" panteísta). Há, em Pandora, uma grande rede neuronal bio-botânica, que conecta todos os seres vivos. Os Na'avi, por exemplo, conectam-se aos seus animais de montaria pelas pontas de suas tranças, algo como portas USB orgânicas. 

Pode-se dizer que Avatar busca realizar a síntese entre duas cosmovisões tradicionalmente antitéticas: o primitivismo romântico e o progressivismo tecno-científico. Pandora é a imagem paradigmática da utopia pós-moderna: um imenso sistema tecno-orgânico; uma tecnologia de comunicação extremamente avançada, eficaz e unificadora, aliada à harmonia total com a natureza e respeito pela diversidade (socio-ambiental). Pandora representa o ideal do desenvolvimento sustentável

Seu criador, o diretor James Cameron, seria como o gigante coroado no frontispício original de O Leviatã – que detinha em suas mãos os poderes espiritual e temporal, a cruz e a espada. Cameron, em uma das mãos, leva a mais poderosa tecnologia de ponta e, na outra, carrega os valores da ecologia e da sustentabilidade; na direita, ele segura o grande capital e a hegemonia euro-americana e, na esquerda, o comunismo primitivo e o multiculturalismo. 

O filme insiste numa idéia recorrente, inúmeras vezes já retratada no cinema hollywoodiano, que cai como uma luva para a causa do ambientalismo: o simbolismo do saber vs. o poder, da ciência vs. o irracionalismo estatal-militar. Um dos principais confrontos do filme é entre a visão de mundo pacifista-ecológica da Dra. Grace Augustine (a experiente e sensata botânica vivida pela atriz Sigourney Weaver) e a visão imperialista-bélica do Cel. Miles Quaritch (vivido por Stephen Lang). 

Parênteses: Se eu fosse o diretor James Cameron, teria acrescentado ainda, como aliado do Coronel Quaritch, um cardeal inquisidor ou catequizador de uma Igreja dominante qualquer, que tentaria evangelizar os Na'avi. 

Tal simbolismo da pura ciência contra os interesses dos poderosos - a Dra. Grace contra o Cel. Quatritch - também opera fora do terreno da ficção. Ele é parte inerente do discurso dos cientistas do aquecimento global - e de seus sponsors - contra os seus críticos. Estes últimos, os chamados "céticos", seriam a versão real do Cel. Quatritch: fundamentalistas e arredios à verdade científica; egoístas e movidos por ganância e toda sorte de ambições pessoais; financiados por poderosos industriais cujos interesses seriam prejudicados pela "verdade inconveniente" (este o título do célebre documentário de Al Gore) revelada pelos aquecimentistas. Já estes seriam almas puras, preocupadas com o destino do planeta, movidos tão somente por um amor genuíno pelos seres vivos e pela verdade científica. (É claro que, em tal narrativa, não fica bem informar, por exemplo, que Al Gore fundou em 2004 a empresa Generation Investment Management, financiadora de projetos verdes como energias renováveis e mercados de carbono. Ninguém precisa saber que nem só de amor ao planeta vivem os aquecimentistas).

O filme Avatar faz, ainda, caixa de ressonância a um fenômeno contemporâneo, a notável expansão de um renovado discurso neo-pagão. Recorde-se, a título de ilustração, da Conferência Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas (Cochabamba, Bolívia), um evento que procurava reagir ao suposto fracasso da Cúpula Mundial do Clima, ocorrido em Copenhague (Dinamarca), em dezembro de 2009. No encontro em Cochabamba (pretensamente alternativo), chegou- se à formulação final da "Declaração Universal dos Direitos da Mãe Terra". Os direitos humanos universalmente estabelecidos pela ONU em 1948, e que, por pressão dos grupos de defesa dos animais, já vinham sendo estendidos, nas últimas décadas, aos animais não-humanos, aplicar-se-iam também agora a um outro tipo de sujeito: a "Mãe-Terra". 

No parágrafo 5º do artigo primeiro da Declaração, lê-se: "La Madre Tierra y todos los seres que la componen son titulares de todos los derechos inherentes reconocidos en esta Declaración sin distinción de ningún tipo, como puede ser entre seres orgánicos e inorgánicos, especies, origen, uso para los seres humanos, o cualquier otro estatus". Vê-se que a utopia aqui não é mais simplesmente a extinção da sociedade de classes, mas a superação de qualquer tipo de distinção – de reino, de gênero, de espécie etc. Trata-se, em suma, da proposta de um imanentismo generalizado ou, como diriam Madame Blavastky e, mais tarde, Leonardo Boff, de uma "fraternidade universal".

A "Epopéia da Evolução" de que fala Ursula Goodenough é como um retrato onírico em que se misturam neo-hippies, ambientalistas e mega-empresários ecologicamente corretos; onde comunidades tradicionais marcham de mãos dadas com o casal Clinton, Al Gore, a WWF e o Greenpeace; onde George Soros, David Rockfeller e Henry Ford passam a integrar o panteão em que já se encontram imortalizados Chico Mendes, Sting, Raoni e Bono Vox.

Escreve Goodenough: 

"That we need a planetary ethic is so obvious that I need but list a few key words: climate, ethnic, cleansing, fossil fuels, habitat preservation, human rights, hunger, infectious disease, nuclear weapons, oceans, ozone layer, pollution, population. Our global conversations on these topics are, by definition, cacophonies of national, cultural, and religious self-interest. Without a common religious orientation, we basically don‘t know where to begin, nor do we know what to say or how to listen, nor are we motivated to respond (...) My agenda for this book is to outline the foundations for such a planetary ethic, an ethic that would make no claim to supplant existing traditions but would seek to coexist with them, informing our global concerns while we continue to orient our daily lives in our cultural and religious contexts (...) Any global tradition needs to begin with a shared worldview (...) It is therefore the goal of this book to present an accessible account of our scientific understanding of Nature and then suggest ways that this account can call forth appealing and abiding religious responses – an approach that can be called religious naturalism (...) the story of Nature has the potential to serve as the cosmos for the global ethos that we need to articulate".

A Marina Silva é a grande representante, no Brasil, desse "ethos global" e dessa "visão-de-mundo comum" que se pretende construir via o poderoso amálgama entre ciência, política e religião que conforma a ideologia aquecimentista do IPCC. A fé privada de Marina não preocupa, e não representa qualquer ameaça à democracia e à laicidade do Estado. O que ameaça a democracia e a soberania nacionais é a fé pública com a qual a candidata está comprometida: a nova religião global do ambientalismo, que busca sintetizar diversas tradições religiosas, com a condição de que seus sentidos originais sejam esvaziados.

Giannetti falou muito bem da Marina evangélica, mas, graças ao seu comprometimento político, não pôde falar do ambientalismo catastrofista que Marina encarna, este sim uma afronta à laicidade e à separação entre política, ciência e religião. A "ciência" do aquecimento global é, hoje, o grande exemplo daquilo que a filósofa Mary Midgley chamou de "ciência como salvação". 

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