sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Com Quem Falam os Terroristas?



Um vídeo chocante tem circulado nos portais de notícias e nas redes sociais esta semana. Ele mostra, em cores terrivelmente vivas, a decapitação do jornalista americano James Wright Foley, obra do grupo terrorista Estado Islâmico. Divulgado pelos terroristas no dia 19 de agosto, o vídeo trazia um texto com dizeres antiamericanos, e veiculava a seguinte mensagem, expressa na voz da própria vítima: “Chamo meus amigos, família e entes queridos a erguer-se contra meus verdadeiros matadores, o governo dos EUA. Porque o que vai acontecer comigo é apenas o resultado de sua complacência e criminalidade”[1]

Segundo consta, Foley acreditava realmente no que dizia[2].

Quem estuda ou se interessa pelo terrorismo contemporâneo certamente está habituado com esse modus operandi, em que se repete uma modorrenta ladainha: a culpa por aqueles atos cruéis é dos EUA (ou de qualquer outro bode-expiatório a gosto do freguês: Israel, o “Sistema”, eventualmente o Ocidente como um todo).

A brutal espetacularização da morte de Foley é uma reedição fiel de casos anteriores. Recorde-se, por exemplo, do empresário Nick Berg, americano de origem judia decapitado por militantes islâmicos no Iraque, em 2004. As imagens também foram divulgadas na internet pelos assassinos. Numa declaração com equivalente teor de cinismo, o terrorista Abou Rachid, um dos autores da barbárie, lançava sobre os EUA a culpa pelo que estava fazendo. Na época, a jornalista Sara Daniel, do Nouvel Observateur, fez a reportagem: 

“Enquanto Abou Rachid explica seu ‘dever de matar’, rememoram-se os urros bestiais de Nick Berg, o refém americano que agoniza enquanto os carrascos investem laboriosamente contra seu corpo contorcido: ‘Vocês sabem, sentimos um grande prazer quando decapitamos alguém’, empenha-se em nos comunicar, em inglês, um dos homens sentados à direita do emir... ‘Nossa intenção ao seqüestrar alguém não é amedrontar os reféns’, corrige ele, ‘mas sim exercer pressão sobre os países que ajudam ou se oferecem para ajudar os americanos. Em que pensam quando visitam um país ocupado?... Decapitar não é uma coisa boa, mas um método que funciona. No decorrer dos combates, os americanos tremem de medo. Vejam a reação correta que tiveram as Filipinas. Graças à atitude deles, pudemos liberar nosso refém e demonstrar ao mundo que também amamos a paz e a clemência... Aliás, eu mesmo tentei negociar a troca de Nick Berg por alguns prisioneiros. Foram os americanos que recusaram. São eles os verdadeiros responsáveis por sua morte’”[3].

Qual é a lógica de tal raciocínio? Seria apenas expressão irracional de mentes “atrasadas”, como quer crer boa parte da opinião publicada? Ou, ao contrário, haveria um sofisticado know how de propaganda a embasar a prática e o discurso dos terroristas, que revelariam, destarte, possuir um notável conhecimento da audiência ocidental para a qual se dirigem?

Eu aposto toda a minha coleção de cachimbos na segunda hipótese. E explico.

Para se compreender a lógica do terror, é preciso, antes de tudo, abandonar todo o imaginário iluminista e o seu pendor para a exotização. Nada mais equivocado, por exemplo, do que a opinião corrente, veiculada em matérias jornalísticas e textos de opinião, segundo a qual os terroristas seriam um bando de criaturas primitivas, egressas da Idade da Pedra, cegas e brutalizadas por concepções de mundo “medievais” (adjetivo usado pejorativamente por dez entre dez jornalistas contemporâneos).

De antemão, cabe lembrar que boa parte dos terroristas islâmicos é oriunda de famílias de classe média alta, educada e intelectualizada. Muitos deles estudaram nas melhores universidades do Ocidente, como Harvard e Oxford. Muitos, além disso, demonstram um completo desinteresse pela tradição corânica[4]. Historicamente, os terroristas não fazem parte de uma massa carente, ignorante, oprimida e miserável. Muito pelo contrário, os “guerreiros suicidas” empenhados na jihad foram educados profissional e intelectualmente no mundo globalizado. Dominando os códigos intrínsecos ao ambiente cultural e universitário do Ocidente moderno, é provável que muitos deles viessem a desfrutar de um futuro próspero caso não houvessem optado pelo terrorismo. Portanto, vislumbrar no fundamentalismo islâmico um fenômeno exótico, arcaico ou, em suma, pré-moderno, é um erro crasso, ainda que comum.

Conforme têm mostrado alguns estudiosos do terrorismo contemporâneo – como André Glucksmann[5], John Gray[6], Paul Berman[7], Barry Cooper[8], entre outros –, o movimento jihadista, antes que conseqüência direta de alguma espécie de “mentalidade primitiva”, é precisamente o contrário: um subproduto da modernidade ocidental, do Iluminismo e do Romantismo[9].

Organizações como a al-Qaeda e o Estado Islâmico são atores globais (e não ‘tribais’) que, à semelhança do anarquismo e niilismo russos do século XIX (tão bem descritos por Dostoiévski em Os Demônios), ou dos totalitarismos europeus do século XX (notadamente, comunismo e nazismo), enxergam o terror como método legítimo para instaurar uma nova ordem e um “novo homem”. O "Terceiro Reich" dos nazistas, a “sociedade sem classes” dos comunistas e o "califado universal" dos jihadistas fazem parte, mutatis mutandis, de uma mesma tradição revolucionária. O terrorismo islâmico, portanto, procede essencialmente daquele tipo de experiência existencial que gerou os movimentos revolucionários ocidentais, fenômeno moderno surgido na decadente Rússia czarista. Como diz John Gray: “Se Osama Bin Laden tem um precursor, este é Sergei Nechaev, o terrorista russo do século dezenove”[10].

Ao atribuir a culpa de seus atos abomináveis aos EUA, os terroristas sabem, pois, com quem estão falando. Sabem que encontrarão ouvidos sensíveis a essa mensagem que justifica a violência mediante a auto-vitimização. Grupos como o Estado Islâmico, a al-Qaeda ou o Hamas sempre souberam muito bem explorar a “culpa coletiva” ocidental. Afinal de contas, a idéia de lançar o fardo de todos os males do mundo sobre as costas dos EUA não é algo novo. Ao contrário, essa mesmíssima mensagem é constantemente vocalizada por um sem-número de bien-pensants no Ocidente.

Basta lembrar dos atentados de 11 de setembro. À época, o conceituado lingüista Noam Chomsky, um dos intelectuais públicos mais influentes do mundo, qualificou os EUA de “Estado terrorista”[11]. A tese de Chomsky era a seguinte: os ataques terroristas representavam uma resposta dos povos oprimidos do Terceiro Mundo aos séculos de exploração e expansionismo norte-americano. Os EUA, antes que vítimas, eram, em última instância, os verdadeiros responsáveis pelos atentados. Soa familiar, não?

A posição de Chomsky foi corroborada por outros intelectuais, e amplificada dentro e fora do universo acadêmico. Segundo tal visão, os terroristas da al-Qaeda haviam sido irremediavelmente atraídos para o campo magnético do WTC – símbolo do poderio econômico norte-americano –, não tendo outra alternativa que não a de se explodir contra milhares de inocentes. Os terroristas estariam expressando um instinto de liberdade, instinto demasiado humano que, sob condições de opressão, tende a se mostrar exasperado e, eventualmente, violento. Já os EUA, o país agredido, sendo inexorável e aprioristicamente culpado no tribunal da História, deveria absorver o golpe com humildade e resignação. Como notou o analista político Frédéric Encel acerca desse estilo de interpretação, “é como se os trabalhadores no World Trade Center e os passageiros dos aviões seqüestrados encarnassem o mal da América, tendo que expiar a culpa pelo culto do rei dólar, o destino dos Apaches, o McDonald’s...”[12]

A mensagem era clara, ainda que odiosa quando dita com todas as letras: os EUA pediram aquilo. Enquanto a maior parte da intelligentsia ocidental evitou dizer o que pensava de maneira assim tão direta, houve intelectuais que não se fizeram de rogado. O filósofo Jean Baudrillard escreveu: 

“Olhando de perto, pode-se dizer que eles o fizeram, mas nós o desejamos... Quando o poder global monopoliza a situação a este nível, quando há tamanha condensação de todas as funções na maquinaria tecnocrática, e quando nenhuma forma alternativa de pensamento é permitida, que outro caminho há senão uma guinada situacional terrorista? Foi o próprio sistema que criou as condições objetivas para essa brutal retaliação” (grifos meus)[13].

No Brasil – justamente o país cuja elite política e intelectual achou por bem dar abrigo ao terrorista italiano Cesare Battisti –, não é de surpreender a presença de intelectuais defendendo abertamente a lógica do terror como meio político aceitável. Recorde-se, por exemplo, de um artigo de Vladimir Safatle, intitulado significativamente “Invenção do terror que emancipa”, no qual o professor da USP, resenhando uma coletânea organizada por Slavoj Zizek (outro notório entusiasta da "violência revolucionária"), descreve terroristas de uma maneira assaz peculiar: “sujeitos não-substanciais que tendem a se manifestar como pura potência disruptiva e negativa”[14]. O cerne do argumento é que o rótulo “terrorismo” é, na verdade, um juízo moralista e reacionário sobre práticas revolucionárias inerentes à história política moderna.

Por ocasião do 11 de setembro, em artigo publicado no Correio Braziliense, Safatle já seguira mais ou menos a linha de Baudrillard: “Verdade seja dita: a terça-feira negra mostrou como a ação política mais adequada para a nossa época é o terrorismo. Ele é o que resta quando reduzimos a dimensão do conflito social à lógica do espetáculo”[15].

Nota-se que esses intelectuais são unânimes em tratar o terrorismo como reação, ou retaliação, a uma agressão anterior. Antes que ação motivada política e ideologicamente, o terrorismo seria equivalente à agressividade reativa de uma fera acuada. Sendo os EUA ou o Ocidente os “verdadeiros” agentes do terrorismo, análises como as de Chomsky, Baudrillard e Safatle acabam por equiparar os terroristas e as vítimas, ambos passivamente sujeitos à atuação de um ator histórico que, de fora e acima, os determina igualmente. Diante do algoz abstrato e categorial, as vítimas concretas (os mortos pelo terror) e os agressores concretos (os terroristas do Estado Islâmico, por exemplo) são todos, de direito, igualados na condição de pacientes históricos. Diante do “fato” primeiro da opressão, o terrorismo torna-se praticamente um imperativo categórico, ou, nas palavras de Safatle, “a ação política mais adequada para a nossa época”.

Ocorre que o terrorismo não precisa de razões, senão apenas de pretextos. Como escreveu o filósofo político André Glucksmann, “o ódio precede e predetermina o objeto que fabrica para si mesmo”[16]. É o que explica o também filósofo político Barry Cooper: “O terror, em especial, não é um meio de enfrentar uma oposição, mas de criá-la (…) Tem de haver um cálculo, uma justificação, para toda a matança, uma narrativa que crie inimigos ‘objetivos’ cuja existência e subseqüente extinção mantenha o aparato homicida em movimento. Esse cálculo e essa justificação é o que [Hannah]Arendt chama de ‘ideologia'" (grifos meus)[17].

Pode-se dizer que, em se tratando de compreender o terrorismo, a razão da intelligentsia tem certa desvantagem em face da razão do senso comum, pois, diferente desta, aquela se vê impedida – graças ao paradigma positivista que esteve na origem da constituição das ciências humanas em disciplinas acadêmicas – de fazer uso de uma distinção moral absoluta entre bem e mal. Cito Cooper mais uma vez: “Para a maioria dos americanos comuns, e, de fato, para a maioria dos seres humanos, os atentados de 11 de setembro foram uma lembrança da diferença entre o bem e o mal. Com efeito, no contexto do progressismo pós-moderno, eles foram uma forçosa lembrança de que tal diferença existe. Os eventos daquele dia não estavam e não estão completamente abertos a interpretações e julgamentos, não foram e não são completamente relativos ou simples matéria de opinião. Quando o presidente Bush referiu-se aos terroristas como ‘praticantes do mal’ [evil-doers], isso não era apenas uma cartada retórica, mas uma descrição correta do que, em árabe, poder-se-ia traduzir diretamente como mufsidoon. Ao mesmo tempo, entretanto, é insuficiente para a ciência política expressar apenas choque e raiva. A indignação de um cidadão e a demanda por justiça ou retaliação é perfeitamente inteligível: a maioria das pessoas sabe quem são os caras maus, e por que eles são maus. É tão auto-evidente quanto poderia ser que os terroristas eram e permanecem sendo fanáticos religiosos e assassinos. É daí que todos, cidadãos e cientistas políticos, devem partir (grifos meus)[18].

A posição de Cooper pode parecer estranha à primeira vista. Isso se dá porque ela está longe de ser dominante entre intelectuais e formadores de opinião. Estes, normalmente, quando convidados por veículos de imprensa a falar sobre terrorismo, procuram contrariar – alguns até corrigir – a percepção espontânea do senso comum sobre o fenômeno. Dessa decisão resultam os muitos malabarismos retóricos e analíticos como os de Chomsky, Baudrillard e Safatle. Para esses autores, a hipótese de que terroristas sejam pura e simplesmente maus é considerada simplista, por suposto. No entanto, desprezando, por assim dizer, esta moralidade maniqueísta do senso comum, os intelectuais acabam reforçando a ideologia subjacente ao terror, ao procurar uma causa supostamente mais “objetiva” que a simples maldade e o desejo de destruição. Para Chomsky, Baudrillard, Safatle e muitos outros intelectuais no Ocidente, os terroristas possuem, de fato e de direito, um inimigo objetivo: a sociedade capitalista ocidental. Nisso, parecem estar de pleno acordo com os fundamentalistas islâmicos. Contra uma lógica “simplista” e “preto-no-branco” (“Fla-Flu” é, hoje, um termo em voga nas redes sociais), propõem-se análises que, sem dúvida mais complexas e sofisticadas, acabam sendo, todavia, menos realistas. Eis um bom exemplo de quando a complexidade funciona como abrigo da ideologia. “A ideologia busca explicar o sentido oculto dos eventos, um sentido nunca acessível ao senso comum (...) Para o ideólogo, as coisas nunca são o que parecem”[19].

Ideólogos extremistas como os assassinos de Nick Berg e James Wright Foley são a prova viva disso. Nos vídeos, vemo-los tentando convencer a opinião pública de que aquilo que se passa à vista de todos é, na verdade, uma espécie de ilusão de ótica. Mesmo estando com a faca e o pescoço das vítimas nas mãos, os assassinos não são eles – como todos poderiam estar imaginando –, mas os EUA. Esses terroristas dizem a sério aquilo que Groucho Marx dissera brincando: “Afinal, vocês vão acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”. 

É lamentável constatar que, com a contribuição de intelectuais-ideólogos tais como Chomsky, Baudrillard e Safatle, uma parcela considerável do Ocidente tenha optado por acreditar nos terroristas, em detrimento do que vêem os próprios olhos.




[1] Link: http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?id=1492488.
[2] Link: http://www.frontpagemag.com/2014/dgreenfield/james-foley-went-looking-to-support-terrorists-in-syria-instead-they-cut-off-his-head/#.U_QH-MkUYLs.facebook
[3] Ver: “Yo lo decapité”. Nouvel Observateur, 5-11 de agosto de 2004. Disponível em: http://www.sara-daniel.com/reportage.php?page=96
[4] Ver: COOPER, Barry. 2004. New political religions, or, An analysis of modern terrorism (Eric Voegelin Institute Series in Political Philosophy). Columbia & London: University of Missouri Press. p. 20.
[5] Ver GLUCKSMANN, André. 2002. Dostoïevski à Manhattan. Paris: Robert Laffont. E também GLUCKSMANN, André. 2004[2007]. O Discurso do Ódio. Rio de Janeiro: Difel.
[6] Ver: GRAY, John. 2003. Al Qaeda and What it Means to Be Modern. New York & London: The New Press.
[7] Ver: BERMAN, Paul. 2004. Terror and Liberalism. New York & London: W. W. Norton & Company.
[8] Op. Cit.
[9] Diz Cooper: “As semelhanças estruturais entre movimentos que, de resto, pouco têm em comum, sugerem que o terrorismo contemporâneo nada mais é que uma espécie de sectarismo revolucionário, ideológico e moderno (...) [Tais movimentos] são associados a expressões de um tipo específico de experiência espiritual que, em seu aspecto mais significativo, independe das tradições e símbolos religiosos através dos quais se expressa (Cooper Op.Cit. p.14 – grifos meus).
[10] Ver: GRAY. Op. Cit. p. 21.
[11] Ver: CHOMSKY, Noam. 2001. 9/11. New York: Open Media/Seven Stories Press.
[12] Citado por BERMAN. Op. Cit. p. 203.
[13] Ver: Baudrillard, Jean. 2002. The Spirit of Terrorism. London: Verso. pp. 5-6.
[14] Link: http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,invencao-do-terror-que-emancipa,305355.
[15] Link: www.geocities.ws/vladimirsafatle/vladi031.htm
[16] Ver: GLUCKSMANN (2004[2007]). p. 140.
[17] Ver: COOPER. Op. Cit. p. 12.
[18] Ver: COOPER. Op. Cit. p. 3.
[19] Ver: COOPER. Op. Cit. p. 13.

Um comentário:

  1. Flávio muito boa sua análise, inclusive nestes últimos dias eu havia me interessado pelo tema no tocante às origens históricas dessa nova "modalidade" de guerra cultural. Neste sentido seu texto foi bastante esclarecedor! Parabéns!

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