sexta-feira, 30 de maio de 2014

René Girard, os Evangelhos e o fenômeno dos linchamentos.





Analisando os Evangelhos em relação à mitologia universal, René Girard faz, em "Eu Vi Satanás Cair do Céu como um Raio", uma interessante comparação entre o episódio da mulher adúltera - quem Jesus impede de ser lapidada - e os pretensos milagres realizados pelo profeta pagão Apolônio de Tiana (século II d.C.), que, entre outros feitos, teria livrado a cidade de Éfeso de uma epidemia de peste. A narração do episódio encontra-se na obra "Vida de Apolônio de Tiana", do escritor grego Filóstrato (170 d.C. – 247 d.C.). 


Filóstrato conta que os efésios, incapazes de se livrar da epidemia, voltaram-se para Apolônio, quem, por meios sobrenaturais, apareceu em suas casas e anunciou-lhes a cura imediata. Apolônio convidou toda a população ao teatro. Havia ali um mendigo, vestido em farrapos, que piscava os olhos como se fosse cego e trazia na bolsa uma côdea de pão. Segundo o relato, a visão do mendigo despertava repugnância.



Dispondo os efésios em volta do mendigo, Apolônio dirigiu-lhes a palavra: “Apanhem tantas pedras quanto possam e atirem-nas nesse inimigo dos deuses”.

A população mostrou-se inicialmente reticente, escandalizada com a idéia de apedrejar um pobre miserável que lhes rogava piedade. No entanto, com tamanha insistência de Apolônio, alguns homens começam a atirar pedras e, ato contínuo, o mendigo lança-lhes um olhar penetrante, revelando olhos cheios de fogo. Os efésios compreenderam então tratar-se de um demônio, e passaram a apedrejá-lo com tanta vontade que as pedras formaram um grande túmulo à volta do seu corpo.

Após um breve momento, Apolônio pede-lhes que retirem as pedras a fim de conferir o animal selvagem que acabaram de matar. Os efésios constataram que a criatura não era um mendigo. Havia ali agora, por baixo das pedras, um animal que parecia um cão molosso, mas da estatura de um leão. O animal, “reduzido a papas” pelas pedras, vomitava espuma como os cães enraivecidos. Mais tarde, exatamente ali onde o mau espírito havia sido expulso, ergueu-se uma estátua de Héracles, o deus protetor.

Segundo a análise de Girard, o “horrível milagre” de Apolônio consiste em desencadear violentamente o mecanismo acusatório, que resulta na polarização de toda a população de Éfeso contra o infeliz mendigo. Depois de vencida a resistência inicial, os efésios começam a apedrejar a vítima com tamanha violência que acabam vendo nela aquilo que Apolônio lhes induz a ver: o demônio da peste, responsável pelo grande mal que assola a cidade.

Trata-se de um efeito catártico. Quanto mais os efésios obedecem ao seu guru, mais se convertem em multidão histérica, descarregando no mendigo todos os seus temores e ódios. Depois do qual, descobrem-se curados da epidemia.

Girard chama a atenção para a diferença essencial entre Apolônio e Jesus Cristo diante do fenômeno da violência contagiosa (aliás, a mesma violência – o apedrejamento): o primeiro, a dispara; o segundo, a desencoraja. Os dois relatos são simetricamente inversos em vários de seus elementos constitutivos.

À diferença dos efésios – que, no início, mostram-se pacíficos e contrários ao apedrejamento –, a multidão que conduz a mulher adúltera até Jesus está raivosa e inflamada. Em ambos os textos, diz Girard, a ação gira em torno de um problema que apenas a frase de Jesus torna explícito, enquanto que, pelo contrário, nunca é claramente formulado na narrativa de Filóstrato: o problema da primeira pedra.

No milagre de Apolônio, a primeira pedra é a grande dificuldade enfrentada pelo guru, uma vez que a população está relutante em iniciar o apedrejamento. Parecendo estar consciente do poder da violência contagiosa ou mimética, Apolônio sabe que, depois de atirada a primeira pedra, as outras virão com maior facilidade. Como é a mais difícil de ser lançada – porque, segundo Girard, é a única que não possui modelo –, Apolônio procura esvaziar o significado da primeira pedra, ou seja, do brutal ato físico em si, tentando distrair o foco da população para a suposta culpabilidade da vítima. Trata-se de um “inimigo dos deuses”, diz Apolônio com exagerada e proposital grandiloqüência, e acaba conseguindo o que quer, justamente: a primeira pedra.

Uma vez que, devido ao encorajamento de Apolônio, a primeira pedra é lançada, a segunda vem logo depois, seguindo-se o exemplo da primeira; a terceira, por sua vez, vem ainda mais rapidamente, já que conta agora com dois modelos, a primeira e a segunda pedras, e assim sucessivamente. Diz Girard: “À medida que os modelos se multiplicam, o ritmo do apedrejamento acelera."

Ao contrário de Apolônio, Jesus menciona explicitamente a primeira pedra, pondo nela a importância que lhe é devida, e deixando que suas palavras ecoem no ar, o que faz recair sobre quem pretenda iniciar o apedrejamento todo o peso da responsabilidade: “aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra”. Quando Jesus profere essa frase, a primeira pedra é o último obstáculo que se antepõe entre a mulher e os seus virtuais apedrejadores, uma vez que o ânimo da população já a predispunha ao ato. Ao chamar a atenção para a primeira pedra, prossegue Girard, Jesus faz o que está ao seu alcance para reforçar e magnificar esse obstáculo. O raciocínio de Jesus é que, quanto mais aqueles que cogitam lançar a primeira pedra se dão conta da responsabilidade que assumem ao fazê-lo, mais chances há de que venham a desistir da ação. E, de fato, as pedras vão, uma a uma, caindo das mãos já pouco convictas. No fim, todos acabam desistindo do apedrejamento.

Pode-se dizer, portanto, que, enquanto Apolônio procura disparar, ao mesmo tempo que ocultar, o mecanismo acusatório, desviando a atenção da gravidade do apedrejamento para a culpabilidade da vítima, Jesus faz precisamente o contrário. Chamando a atenção para a responsabilidade que recai sobre o primeiro apedrejador, ele retira o foco de sobre a vítima, revelando com isso a irracionalidade da violência mimética. Apolônio procura convencer os efésios de que a vítima é radicalmente diferente deles – ela é um “demônio”. Jesus, ao contrário, mostra que a vítima é essencialmente igual aos seus algozes – estes são pecadores como aquela. Apolônio procura diluir a responsabilidade pelo apedrejamento na coletividade homicida, ao passo que Jesus procura chamar cada um, individualmente, à responsabilidade.

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