quarta-feira, 16 de abril de 2014

O rosto da bondade brasileira

Em No Caminho de Swann, volume 1 de Em Busca do Tempo Perdido, Proust tece as seguintes considerações sobre a bondade:  

"Quando tive mais tarde ocasião de encontrar, no curso da vida, em conventos por exemplo, encarnações verdadeiramente santas da caridade ativa, tinham geralmente um ar alegre, positivo, indiferente e brusco de cirurgião apressado, essa fisionomia em que não se lê nenhuma comiseração, nenhum enternecimento diante da dor humana, nenhum temor de feri-la, e que é a fisionomia sem doçura, a fisionomia antipática e sublime da verdadeira bondade."

Há aí evidentes ecos bíblicos. O trecho faz recordar, por exemplo, a passagem dos Evangelhos em que Jesus Cristo trata da verdadeira caridade, também ela discreta, sem comiseração, sem doçura.

"Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte não tereis galardão junto de vosso Pai Celeste. Quando, pois, deres esmola, não toques trombetas diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua esquerda o que faz a tua direita, para que a tua esmola fique em segredo; e teu Pai, que vê em segredo, recompensar-te-á" (Mt, 6: 1-4).

Nada mais distante do que se passa no Brasil de nossos dias. Vivemos uma era da bondade espalhafatosa, da bondade auto-comiserada, narcísica e vaidosa de si. A fisionomia da bondade brasileira hoje é açucarada e enjoativa. Não exibe a ágil e prosaica indiferença descrita por Proust, senão o peso solene de quem vive todo o tempo mirando-se no espelho da aprovação alheia. Temos uma bondade acusatória. Sou bom, logo, tudo me é permitido.

Que se dê uma espiada nas redes sociais e os rostos da bondade artificial estarão todos lá, como máscaras grotescas, afetadas carrancas auto-piedosas destilando o seu senso de justiça e o amor de dois tostões pelos oprimidos do mundo.  Censura-se por bondade, difama-se por bondade, persegue-se, ó sublime glória, por bondade... O rosto da bondade brasileira é pavoroso.

Uma jornalista foi impedida de dar opiniões por pressão dos monopolistas da bondade. Há opiniões certas, e delas não se escapa. São elas: o aborto é um direito humano inalienável das mulheres; a Igreja Católica é nazista; há excesso de democracia na Venezuela; ditaduras de esquerda são essencialmente morais; vítimas de latrocínio são culpadas porque ostentam demais; homens são estupradores em potencial; negros podem discriminar brancos por conta da dívida histórica; policiais militares merecem morrer; empresários são cruéis, e precisamos de leis que nos protejam deles; negros devem ser favoráveis a cotas raciais; o casamento gay é cláusula pétrea, e quem não o aprove é herege e deve queimar.

Todas as opiniões acima, entre outras, foram expressas por personalidades que, no Brasil, se auto-denominam "progressistas" - um termo para pessoas cuja bondade a priori lhes confere um salvo-conduto para fazer qualquer coisa contra os maus, que seriam, pela lógica, os "regressistas" (ou reacionários). O termo "progressista" aplica-se não apenas a pessoas, mas também a uma infinidade de objetos. Assim, a bicicleta é um meio de transporte progressista, opondo-se ao carro, que é regressista. Ciclistas - ou "cicloafetivos", segundo o jargão politicamente correto - são progressistas; motoristas de carros, regressistas. Alimentos também são classificados como progressistas ou regressistas, sendo a salada de broto de bambu com quinoa essencialmente progressista, e a carne vermelha, odiosamente regressista. Maconha é progressista; tabaco, regressista. E assim por diante. Sempre adiante.

Os progressistas reconhecem-se pelo olhar e pelo lirismo em comum. Conquanto, vez ou outra, deixem verter uma lágrima ao som de uma canção do Chico, que os faz lembrar - mesmo os que à época não foram nascidos - os anos de chumbo, eles logo recobram a fortaleza e a postura de eterna indignação contra as injustiças:

"Calem a jornalista reaça! Expulsem os coxinhas das galerias do Congresso.  Amordacem o rotweiller da Veja. Eles não são dos nossos... Os nossos são bons, e trazem a bondade na fisionomia beata do perfil da rede social, na indignação coletiva que inflama os olhares dos ungidos. E que toquem as trombetas diante de nós, e que elas sejam um sinal de pavor para os reacionários em fuga, esmagados e vencidos sob o peso da nossa bondade".

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