terça-feira, 8 de abril de 2014

Valesca, a Pensadora

Um professor da Universidade de Brasília comenta sobre a inclusão de Valesca Popozuda como "grande pensadora contemporânea" numa prova.


“Não vejo nenhum problema em usar trechos de músicas ou poemas em provas. Por outro lado, eu faria algumas restrições ao chamar a funkeira de grande pensadora, já que esse tipo de título deve ser dado a pessoas que tenham dado alguma contribuição significativa à produção seja musical, teatral ou no campo acadêmico. Chamá-la de grande pensadora parece um exagero.”

Reparem que o professor se sente na obrigação de argumentar racionalmente sobre por que chamar a Valesca Popozuda de "grande pensadora" é um equívoco. Ele mede as palavras, age com muita cautela, pisa em ovos e, por fim, usa o eufemismo "exagero". Note-se: não é uma loucura, um descalabro, uma aberração, um escárnio. Não. É apenas - ou, pior, parece ser  - "um exagero". Só o fato de que se faça necessário explicar por que a referida funkeira não pode ser considerada uma grande pensadora significa que essa possibilidade - a de que ela seja - já entrou no horizonte mental dos brasileiros. No Brasil de hoje, já não é mais imediatamente óbvio ou senso comum que a Valesca Popozuda não seja uma grande pensadora. Quem ousa ver nisso algo de errado terá, a partir de agora, que se explicar.


É claro que - assim como a pesquisa do IPEA - também aqui não se trata de erro, distração ou evento isolado. É mais uma das muitas iniciativas, sistematicamente aplicadas, de um projeto muito bem calculado de rebaixar a cultura e a educação brasileiras. Mais ainda: o objetivo claro dos engenheiros sociais encarregados do projeto é o de destruir quaisquer parâmetros de julgamento e avaliação. Porque, uma vez que a sociedade brasileira já começa a não reconhecer a diferença entre uma Valesca Popozuda e um Gilberto Freire, entre um Naldo e um Villa-Lobos, entre o Lepo Lepo e a Nona Sinfonia de Beethoven, será mais e mais fácil aceitar tipos como Lula e Dilma - dois analfabetos ignorantes - na presidência do país, um Renan Calheiros na Comissão de Ética, uma Marta Suplicy no Ministério da Cultura e, quiçá, um Delúbio Soares na reitoria de uma universidade federal. A chance desse pessoal todo é que o brasileiro - e, sobretudo, aqueles que deveriam formar a elite pensante do país - perca a capacidade de juízo. No lusco-fusco da mediocridade generalizada, os malandros destacar-se-ão. A vilania será consagrada como honra; a torpeza como coragem; o grotesco como sublime; o horrendo como belo; o Lula como doutor honoris causa (Opa! Essa já foi).



O caso da Valesca Popozuda é claramente a aplicação da técnica de manipulação psicológica conhecida como "porta na cara"*. Ela consiste na apresentação de uma demanda exorbitante, que obviamente será recusada, depois da qual se apresenta uma segunda demanda, menos custosa, que então será aceita mais facilmente. Em uma experiência clássica, Citaldini et al. solicitaram a alguns estudantes que acompanhassem, por duas horas, um grupo de jovens delinqüentes em uma visita ao zoológico. Formulada diretamente, essa solicitação obteve somente 16,7% de aceitação. Entretanto, colocando-a após um pedido exorbitante, a taxa elevou-se a 50%. Com tal expediente, é possível obter comprometimentos cada vez mais significativos.

Essa coisa aparentemente absurda e cômica de classificar a Valesca Popozuda como "grande pensadora" - fato que, obviamente, provocará reações adversas - pode perfeitamente bem corresponder à demanda exorbitante inicial da técnica da "porta na cara", amortecendo as resistências a uma segunda demanda qualquer (tipo, sei lá, Gregório Duvivier como filósofo?) Percebe-se, pela fala reticente do professor da UNB, que a técnica já obteve algum grau de sucesso.

A "porta na cara" e outras técnicas de manipulação psicológica e comportamental, conhecidas há muitas décadas, têm sido testadas e avaliadas recorrentemente por governos ao redor do mundo em suas respectivas populações. No Brasil, isso ocorre todos os dias. É um jeito muito eficiente de controle totalitário por meios não aversivos, método de condicionar uma população inteira a reagir conforme se espera, sem a necessidade de aparelhos de repressão visíveis, tais como tanques, censura aberta, gulags etc. No universo do poder político, isso é mais velho do que andar para frente. Mas, como no Brasil, a maior parte das pessoas nunca ouviu falar nesse tipo de coisa, os donos do poder vão cozinhando a sociedade como se cozinha uma rã: esquentando a água da panela aos pouquinhos...


* cf. R.B. Cialdini, J.E. Vincent, S.K. Lewis, J, Catalan, D. Wheeler, B.L. Darby. "Reciprocal concessions procedure for inducing compliance: the door-in-the-face technique". Journal of Personality and Social Psychology, vol. 31 , n° 2, p.206 - 215, 1975.

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