sábado, 13 de outubro de 2012

Eric Hobsbawm, a Veja e o provincianismo intelectual


"Tel qu’en Lui-même enfin l’éternité le change" 
(Le Tombeau D’Edgar Poe, Stéphane Mallarmé)


Morreu recentemente o historiador britânico Eric Hobsbawm, celebrado por muitos como um dos maiores intelectuais do século XX. Ao lado das justas homenagens ao seu reconhecido talento como historiador, surgiram também salutares ressalvas de que, de um ponto de vista político e, sobretudo, moral, a reputação de Hobsbawm está longe de ser uma unanimidade. 


Mais ainda, alguns comentadores (incluindo historiadores e filósofos) sugeriram - e vêm sugerindo - que a própria atuação de Hobsbawm como historiador foi, sob muitos aspectos, prejudicada pela adoção obstinada e inflexível de uma filosofia marxista da história e pelos posicionamentos políticos que tal moldura filosófica o levou a adotar, com uma renitência digna de nota até mesmo por parte de companheiros de ideologia. Tais comentários acabaram fornecendo um importante contrapeso às muitas tentativas de canonização do historiador, vindas, inclusive, de pessoas que nunca leram uma linha sequer de sua obra, mas que desejavam desfrutar um pouco da aura de seu prestígio acadêmico.

Resenhando um dos últimos livros escritos por Hobsbawm, o também historiador britânico Tony Judt já tecera comentários interessantes a respeito da  inexplicável teimosia ideológica do autor, que o levou a relegar ao segundo plano - grave pecado para um historiador - fatos absolutamente fundamentais da história do século XX: 

"Ao contrário da maioria dos intelectuais que, em algum momento, cederam ao encanto do Comunismo, Hobsbawm não demonstra arrependimentos. De fato, embora admita a derrota de tudo o que o Comunismo representava, ele insiste sem pestanejar que, a meio caminho de sua nona década de vida, 'o sonho da Revolução de Outubro ainda está em algum lugar dentro de mim'. Previsivelmente, foi essa obstinada recusa em 'renegar' toda uma vida comprometida com o Comunismo que atraiu a atenção da opinião pública. Por que, Hobsbawm foi questionado em inúmeras entrevistas, você não abandonou o Partido em 1956, como a maioria de seus amigos, quando os tanques soviéticos esmagaram as revoltas húngaras? Por que não em 1968, depois que o Exército Vermelho invadiu Praga? Por que você ainda parece acreditar - conforme Hobsbawm sugeriu em mais de uma ocasião em anos recentes - que o preço em vidas humanas e sofrimento sob o regime de Stálin teria valido a pena ser pago se os desdobramentos tivessem sido melhores?" (ver aqui).


Judt conclui que, excluindo-se deliberadamente do grupo de ex-comunistas que, por terem feito um exame de consciência, contribuíram com algumas das melhores análises sobre o terrível século XX - grupo que inclui nomes como Jorge Semprún, Wolfgang Leonhard, Margarete Buber-Neumann, Claude Roy, Albert Camus, Ignazio Silone, Manès Sperber, Arthur Koestler, George Orwell, entre outros -, Eric Hobsbawm acabou por "provincianizar a si próprio".

Com efeito, o século XX - e especialmente o período que vai de 1914 a 1991, chamado pelo autor de "o curto século XX", - é considerado por muitos a parte mais fraca da obra de Hobsbawm. Numa resenha de outro livro do historiador marxista, o filósofo político John Gray assinalara:

"Se A Era do Capital (1975) e a Era do Império (1987) são um marco nas obras de história, uma razão é a profunda compreensão ali demonstrada das interações entre as ideias e o poder. A maior fraqueza de Hobsbawm é que ele optou por não aplicar o mesmo entendimento histórico ao período entre 1914 e 1991 - a era que ele chamou de 'o curto século XX', na qual o Comunismo chegou ao poder em várias partes do mundo e depois desapareceu, deixando atrás de si nada menos que uma trilha de ruínas. Seus escritos sobre aquele período são banais ao extremo. São também largamente evasivos. Um vasto silêncio paira sobre as realidades do Comunismo." (ver aqui).

No dia mesmo do falecimento de Hobsbawm, o historiador Michael Burleigh escreveu para o The Telegraph que, ao longo de toda a sua trajetória intelectual, há em Hobsbawm "uma recusa dogmática em admitir que a Revolução Bolchevique foi um fracasso homicida". O autor acrescentou ainda: 

"A implacável recusa de Hobsbawm de repensar suas visões quando confrontadas com suas grotescas consequências nos diz algo sobre a beligerante mentalidade da esquerda britânica mais ampla." (ver aqui).


O colunista A. N. Wilson, do Mail Online, foi ainda mais contundente, escrevendo um 'necrológio' nada elogioso:

"No que se refere à história do século XX, ele [Hobsbawm] jamais aprendeu suas lições. As dezenas de milhões de mortos, as centenas de milhões de escravizados, a maligna falsidade da ideologia que se abateu com tamanho horror sobre as populações da Rússia, Hungria, Tchecoslováquia, Polônia e Alemanha nunca ocorreu a esse homem. Ele continuou acreditando que uns poucos erros foram cometidos, e que o stalinismo foi 'decepcionante' - mas que, no geral, teria sido maravilhoso se Stálin tivesse triunfado (...) A verdade é que, longe de ser um grande historiador que às vezes comete erros, Hobsbawm falsificou deliberadamente a história" (ver aqui).

Os autores acima citados, assim como outros comentadores de Hobsbawm, fazem referência a uma passagem particularmente chocante de sua biografia. Em 1994, numa entrevista transmitida pela televisão - depois publicada no Times Literary Supplement -, Hobsbawm declarou ao intelectual canadense Michael Ignatieff que o fato de Stálin ter assassinado milhões de sua própria população justificar-se-ia se tivesse resultado na realização da utopia comunista. Vale a pena citar o trecho em questão:


"Ignatieff: Em 1934, milhões de pessoas estão morrendo no experimento soviético. Se você soubesse disso, teria feito diferença para você na época? Para o seu comprometimento? Em ser comunista? 
Hobsbawm: ...Provavelmente não. 
(...) 
Ignatieff: Isso significa que, tivesse o radiante futuro sido mesmo criado, a perda de 15, 20 milhões de pessoas [hoje sabe-se que, somando-se as experiências soviética e chinesa apenas, as cifras ultrapassam os 130 milhões de mortos (ver aqui e aqui)] estaria justificada?
Hobsbawm: Sim" (ver aqui).

Como nota Wilson em seu artigo, imaginemos, por hipótese, que algum direitista extremado aparecesse na BBC, por exemplo, dizendo que os nazistas teriam tido razão em eliminar 6 milhões de judeus se tivessem alcançado seus objetivos. Todo mundo ficaria horrorizado, julgando, com toda a razão, que o sujeito jamais deveria falar em público novamente, ou pelo menos até que se arrependesse de suas repulsivas ideias.


Nada parecido ocorreu a Hobsbawm, mesmo após ter feito aquela declaração, o que não revela uma diferença substancial entre os horrores nazistas e os horrores soviéticos, mas simplesmente o fato de que os comunistas venceram a guerra cultural, enquanto os nazistas a perderam. Os comunistas não foram moralmente superiores aos nazistas; foram apenas melhores estrategistas, mais influentes e mais espertos.


Percebe-se que a visão de Hobsbawm sobre o (para ele, lamentavelmente) "curto século XX" reflete um problema inerente a toda historiografia marxista: o fato de que a filosofia da história subjacente a ela é teleológica, ou seja, não parte de fatos passados para a interpretação do presente e prognósticos para o futuro, mas de um futuro hipotético e frequentemente utópico - a sociedade sem classes -, que deverá servir de medida para a análise e seleção dos fatos históricos. Como todo autor de mentalidade teleológica - de Joaquim de Fiore a Hegel, de Comte a Marx e daí a Fukuyama -, Hobsbawm acredita saber de antemão qual o sentido da história, analisando os eventos de acordo com este sentido. O problema é que, quando contrariam o sentido previamente definido, os fatos tendem a ser suprimidos por uma espécie de catarata ideológica, bruma espessa e leitosa a descer por sobre os olhos do historiador, causando-lhe um escotoma, um ponto cego. 


O ponto cego de Hobsbawm era, sem dúvida, os cerca de 80 anos em que os comunistas ocuparam o poder e puderam pôr em prática a "ditadura do proletariado" preconizada por Lênin. Em Era dos Extremos, por exemplo, ao tratar do regime soviético, Hobsbawm simplesmente não menciona o massacre de mais de 20.000 soldados poloneses na floresta de Katyn, perpetrado pela NKVD, a polícia secreta russa. Note-se que, quando da publicação do livro, até mesmo o governo soviético de Mikhail Gorbachev já havia reconhecido o massacre, condenando tanto os crimes quanto o seu acobertamento. Hobsbawm julgou por bem ser mais realista que o rei e continuar acobertando o ocorrido. 

Em seu Sobre História, de 1997, Hobsbawm não hesitou em escrever: "Por frágeis que se revelassem os sistemas comunistas, apenas um uso limitado, ou mesmo nominal, de coerção armada foi necessário para mantê-los de 1957 até 1989" (São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 276 - grifos meus). Não é que esta seja uma interpretação equivocada ou enviesada dos fatos. Trata-se de mentira pura e simples, coisa que um historiador profissional não deveria se permitir escrever. Diante dos mais de 6 mil tanques e centenas de milhares de soldados do Pacto de Varsóvia que invadiram a Tchecoslováquia para reprimir a Primavera de Praga, por exemplo, como falar em "uso limitado" ou "nominal" de coerção armada?


Mas não são apenas distorções de conteúdo factual como as citadas acima que se observam no Hobsbawm que olha para o "curto século XX". Como bem ressalta Judt, sua própria linguagem se deforma, deixando de apresentar aquela segurança e clareza de quando o historiador escreve, por exemplo, sobre a França do século XVIII, ou sobre a Inglaterra da Revolução Industrial, passando, em vez disso, a um linguajar tartamudeante, frequentemente tautológico, que aparenta querer ocultar mais que revelar.


Descrevendo, por exemplo, o famoso "discurso secreto" em que Khrushchev denunciava os 'malfeitos' de Stálin, Hobsbawm fala em uma "brutal e implacável denúncia das crueldades de Stálin". Os adjetivos "brutal" e "implacável" referem-se à denúncia dos crimes de Stálin e não aos crimes eles mesmos! Em A Era dos Extremos, abordando o regime stalinista, Hobsbawm escreve que "a possibilidade de ditadura está implícita em qualquer regime baseado num partido único, irremovível" (São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 379 - grifos meus). E alguém poderia simplesmente alertar Hobsbawm de que um regime de partido único e irremovível é uma ditadura.


Em suma, percebe-se que, para muitos intelectuais fora do Brasil, há razões de sobra para, ao lado dos necrológios de praxe, proceder a uma crítica severa a Hobsbawm, especialmente naquele momento da vida em que, como escreveu Mallarmé no túmulo de Edgar Allan Poe, a eternidade, enfim, transforma o homem naquilo que ele sempre foi.


No Brasil, a revista Veja, ainda que de maneira mais tosca, fez a respeito de Hobsbawm um juízo não muito diferente àquele de muitos analistas estrangeiros, qualificando o historiador marxista de "idiota moral" (ver aqui). No meio da louvação geral ao ídolo, menos sincera e honrosa do que sicofântica e oportunista, o desajeitado texto da Veja foi a única avaliação negativa da obra e do pensamento de Hobsbawm, que, de outro modo, poderia ser confundido com um santo ou messias por alguém de fora que topasse com os suplementos literários e culturais dos jornais brasileiros. 


A matéria da Veja acabou preenchendo um vácuo que deveria estar ocupado por uma crítica intelectual mais abalizada, mas que no Brasil inexiste, por esbarrar num primário e provinciano espírito de corpo e numa reverência meramente formal e ostensiva diante dos grandes figurões do universo cultural euro-americano. No Brasil, estes costumam ser admirados menos por sua obra intelectual propriamente dita - aliás, quase nunca lida - e mais como símbolos de autoridade, meios de legitimar certas inclinações político-ideológicas. Com Hobsbawm, a coisa chega por aqui a níveis inacreditáveis. Como provoca Judt, "em certas partes da América do Sul - e especialmente no Brasil - ele é um herói cultural e folclórico".

Mas será que o homem era, de fato, imaculado? Será que merece mesmo ser tomado como um guia espiritual e intelectual para o país da forma como vem sendo? Será mesmo que a avaliação da revista era um total e completo despropósito?


A resposta, previsivelmente, veio na forma de um dos mais característicos gêneros literários da academia brasileira: o manifesto de intelectuais reunidos numa associação, sindicato, coorporação etc. Tais documentos buscam quase sempre compensar a debilidade usual dos argumentos por meio do grande número de adesões, apostando na quantidade, antes que na qualidade, como forma de intimidação e desagravo. No caso da matéria de Veja, uma entidade de classe chamada ANPUH (Associação Nacional de História) achou por bem defender o celebrado historiador - como se isso já não fosse ridículo o bastante -, e o fez da maneira a mais provinciana e coorporativista que se poderia esperar, como se guardando zelosamente o próprio feudo contra uma ameaça estrangeira. 


Com todos os defeitos que a matéria da Veja trazia em seu conteúdo, ela ainda assim arriscava lançar luz sobre um fenômeno que muitos historiadores brasileiros gostariam que permanecesse nas sombras: o fato de que a perspectiva marxista é praticamente hegemônica nos departamentos de história das universidades nacionais, com reflexos especialmente nocivos sobre os materiais didáticos voltados ao ensino fundamental e médio. Tal hegemonia não decorre de qualquer mérito substancial daquela abordagem, mas de um trabalho incansável de ocupação de espaços nas escolas e universidades. Ali, os alunos são submetidos diariamente a uma visão simplista e monolítica dos acontecimentos históricos, interpretados sempre e exclusivamente na chave da luta de classes e do evolucionismo etapista (feudalismo-capitalismo-socialismo-comunismo) típico da filosofia marxista da história. Lembro-me perfeitamente bem, além disso, de como os livros didáticos no meu ensino médio retratavam o Comunismo e os líderes comunistas de maneira simpática, frequentemente heróica, como se agissem inequivocamente movidos tão só por altruísmo e solidariedade; e de como, ao contrário, os adversários do Comunismo eram retratados como criaturas movidas apenas por egoísmo e ganância. 


Foi como símbolo daquela hegemonia cultural que Hobsbawm jamais poderia ser maculado. A revista Veja cometera a pior das iconoclastias. O problema não foi o de ter desrespeitado o historiador, mas o de ter profanado o líder cultural que legitima o espírito de corpo, a tacanhice, a mesquinhez, a monocultura teórica de boa parte dos historiadores brasileiros.


A "resposta à revista Veja" assinada pelos historiadores da ANPUH foi infeliz em vários sentidos. Em primeiro lugar, por maltratar a língua portuguesa, confirmando a situação catastrófica da educação brasileira, que leva professores universitários a escrever frases como "[Hobsbawm]Entendeu assim, (sic) o cotidiano e as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do desenvolvimento capitalista." (O que faz aquela vírgula após o advérbio de modo "assim", separando, assim, o verbo e o predicado? Ou bem o advérbio vem entre vírgulas, como um termo separado, ou bem a frase vem sem vírgula alguma! O que não se pode, e pessoas que têm na língua escrita um instrumento de trabalho deveriam saber, é separar os elementos principais da oração - sujeitos, verbos e predicados - por meio de vírgulas). Ou ainda: "O tratamento desrespeitoso é dado logo no início do texto 'historiador esquerdista' (sic.), dito de forma pejorativa e completamente destituído de conteúdo" (Trata-se de uma construção gramatical perfeitamente dislexa, que torna a frase incompreensível. O que os autores pretenderam dizer? O texto da Veja chamava-se, por acaso, "historiador marxista"? Não, não era o caso. Como, então, interpretar uma frase tão hermética? E, independentemente do mau português, o que há de "pejorativo" em chamar Hobsbawm de "historiador esquerdista", uma vez que, pelo que se sabe, ele era historiador e era esquerdista?).


Em segundo lugar, a nota da ANPUH recorre pateticamente a um argumento de autoridade, tentando intimidar os autores da matéria com uma 'carteirada' do tipo "Sabe com quem estão falando? Quem são vocês para criticar o Hobsbawm, um dos homens mais importantes do século XX?". Afora isso, e alguns clichês adocicados tais como "contradições inerentes aos homens" - cuja aplicação a Hobsbawm chega a ser engraçada, uma vez que o homem era sabidamente um primor de coerência e rigidez ideológica -, não há mais nada no manifesto, um retrato deprimente do atual estado do debate público no Brasil e, sobretudo, de nossa intelligentsia.


É certo que a matéria publicada pela revista está longe de ser uma análise séria e aprofundada do legado de Hobsbawm. Tal análise, aliás, nem seria o papel de jornalistas e editores de um órgão de comunicação de massa, mas de intelectuais responsáveis, com conhecimento de causa. Graças à omissão dos intelectuais - que, no Brasil, mostram-se cheios de dedos e pudores diante de personalidades consagradas, transformando a academia numa espécie de salão de chá, onde a obsessiva atenção às regras de etiqueta e bom comportamento sobrepõe-se às exigências de um debate intelectual honesto -, coube a uma revista como a Veja exercer aquele papel, que, evidentemente, ela não está habilitada a cumprir.


Tudo isso é muito prejudicial para o debate cultural no país. O emprego que a revista faz do termo "idiota moral", provavelmente com intenção meramente ofensiva, obscurece o fato de que tal rótulo pode perfeitamente bem ser transformado num termo técnico, cuja aplicação a Hobsbawm talvez seja mais adequada do que pareceria à primeira vista.


Em certa passagem de seu Hitler e os Alemães, o filósofo Eric Voegelin menciona uma questão levantada pelo cientista político Waldemar Besson a respeito da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha. Como fora possível, indagava-se Besson, que 70 milhões de pessoas tivessem sido dominadas por um "idiota"? Voegelin então comenta: 



"Não farei de jeito nenhum uma propaganda da palavra 'idiota'. É abrangente demais, e obviamente Hitler tinha uma inteligência eminente, pela qual era capaz de enganar outras pessoas. Mas ainda há algo nisso. Pois este problema do idiota está, em última instância, relacionado com o problema do stultus, do tolo no sentido técnico (...) Esse fenômeno sempre foi reconhecido nas civilizações antigas. O tolo, o nabal, em hebraico, que por causa de sua tolice, nebala, cria desordem na sociedade, é o homem que não é um crente, nos termos israelitas da revelação. O amathes, o homem irracionalmente ignorante, é para Platão o homem que simplesmente não tem a autoridade da razão ou que não pode curvar-se a ela. O stultus, para Tomás, é o tolo, no mesmo sentido da amathia de Platão e do nebala dos profetas israelistas. Este stultus agora sofreu uma perda de realidade e age com base numa imagem deficiente da realidade e, assim, cria desordem." (São Paulo: É Realizações, 2008. pp. 85 e 121 - grifos meus).

Para o historiador marxista, o Comunismo era muito mais do que um dado da realidade. Ele era um escathon imanentizado, a promessa do tempo do "fim dos tempos". Ao contrário do que fazia com outros fenômenos históricos, quando abordava o comunismo Hobsbawm já não falava como o homem concreto, o historiador, mas como um representante daquele escathon, um profeta, alguém situado, portanto, fora e para além da história. O desastre da experiência comunista foi interpretado por Hobsbawm não como um problema inerente àquela utopia política, mas como um desvio de rumo, um obstáculo circunstancial, uma derrota momentânea. Tudo o que o historiador pôde pensar contra o regime de Stálin foi que este era decepcionante. A utopia comunista, por sua vez, restou intacta e sem máculas. Uma vez corrigidos os problemas, seria o caso de tentar mais uma vez, e mais outra, e mais quantas vezes fossem necessárias até que o utópico pudesse, enfim, ver seu sonho político realizado. Como escreveu Voegelin em outro de seus textos: 


"A interpretação escatológica da história resulta numa falsa imagem da realidade; e erros com respeito à estrutura da realidade têm consequências práticas quando a falsa concepção é tomada como base para a ação política." (The New Science of Politics: an Introduction. Chicago & London: The University of Chicago Press, 1952[1987]. p. 166).

Hobsbawm era, sem dúvida, um homem de inteligência acima da média e um historiador competente. No entanto, no que se refere à realidade concreta da experiência comunista, ele era um stultus. Por não ter, ao contrário de muitos de seus contemporâneos, feito um exame de consciência e abandonado uma utopia política de juventude - mesmo que essa utopia tenha gerado efeitos catastróficos quando posta em prática -, Hobsbawm sofreu uma "perda de realidade". Sua imagem da realidade histórica do Comunismo permaneceu, até os últimos dias de sua vida, completamente distorcida, fazendo dele, de fato, um homem paralisado, inflexível, incapaz de juízo moral mesmo em face das mais terríveis atrocidades.

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