quinta-feira, 26 de julho de 2012

"Você sabe matar um branquelo, hein?": O Politicamente Correto sob a Perspectiva da Ética

"Enquanto o nosso estetismo não for levado perante um tribunal do espírito capaz de julgá-lo pelos crimes de irresponsabilidade que vem cometendo há tanto e tanto tempo, continuará ele transformando em emocionalismo contemplativo e indiferente à moralidade os temas mais acentuadamente éticos que a vida humana é capaz de sugerir" (Mário Vieira de Mello, Desenvolvimento e Cultura: O Problema do Estetismo no Brasil)

Introdução: Os Politicamente Incorretos

O Politicamente Correto (ou simplesmente PC, como é apelidado nos EUA) é hoje um tema recorrente no debate público. Graças, talvez, a certas características que lhe são inerentes, ele vem sofrendo um sem-número de críticas. Se, antes, poucas pessoas ousavam desafiá-lo abertamente, temendo o alarde público que tal 'afronta' poderia  (e, em larga medida, ainda pode) suscitar, agora a crítica tem ganhado certa popularidade, chegando mesmo a se insinuar, ainda que marginalmente, em alguns centros produtores de cultura de massa. 

Há algumas semanas, por exemplo, em seu mais novo programa televisivo, o apresentador Pedro Bial, da TV Globo, comandou um bate-papo sobre o tema no qual o tom, de modo inédito, tendia mais para a crítica do que para o endosso (ver aqui). A TV Globo, que tem se caracterizado historicamente por ser uma propagadora de agendas politicamente corretas (direitos das mulheres, direitos dos homossexuais, direitos dos portadores de deficiência, combate ao racismo, multiculturalismo, ecumenismo religioso e etc.), parece ter captado no ar a existência de um novo nicho de mercado, formado por pessoas já um pouco irritadas, não sem razão, com a onipresença do PC no discurso público e, sobretudo, com abusos persecutórios decorrentes desse espírito - tais como a tentativa de censura a trechos de obras do escritor Monteiro Lobato e a injustificada acusação de racismo dirigida ao cantor Alexandre Pires por parte da Secretaria Nacional de Promoção de Igualdade Racial, que o levou a ser investigado pelo Ministério Público, por conta de um clipe musical no qual homens (incluindo o próprio cantor, que é negro) aparecem vestidos de macaco.

Além do exemplo do programa de Pedro Bial, outra área em que a crítica aparece com bastante frequência é o humor, sobretudo nas assim chamadas stand-up comedies. Humoristas como Rafinha Bastos e Danilo Gentilli - este último encenando um espetáculo cujo título é "Politicamente Incorreto" - têm usado e abusado da iconoclastia e do deboche em sua crítica ao discurso PC. Esse tipo de humor tem tido boa resposta em termos de público, o que talvez seja um bom indicativo de um certo clima de opinião anti-PC.

O termo "politicamente incorreto", aliás, criado em reação ao PC, tem aparecido bastante em livros, revistas e jornais. Há Guias Politicamente Incorretos disso e Guias Politicamente Incorretos daquilo. Há pessoas assumindo com gosto uma 'identidade' politicamente incorreta, como se se tratasse de um estilo de vida. Como sói acontecer nas redes sociais, a coisa se banaliza e se degrada numa velocidade impressionante, e hoje já é possível observar pessoas que se dizem politicamente incorretas por puro modismo e espírito bovino, ou que tomam tal noção por uma espécie de salvo-conduto para cometer grosserias gratuitas contra os outros e brandir clichês como se fossem expressão de coragem. Uma vez que vivemos o auge do que Christopher Lasch bem chamou de "cultura do narcisismo", o politicamente incorreto logo passou de uma tentativa legítima e bem-humorada de impor um freio às tendências totalitárias do PC - que são ainda majoritárias - a uma mera afetação narcísica de 'rebeldia' e 'autonomia'. 

Diante de qualquer fenômeno que começa a se massificar e estabilizar, cabe ao analista adotar uma atitude de desconfiança. Quando a crítica ao PC ameaça tornar-se uma maçaroca indistinta e disforme; quando intelectuais, jornalistas, humoristas e quaisquer revolucionários de Facebook (escreverei sobre eles futuramente) passam a empregar uma linguagem comum e homogênea; quando, enfim, começa-se a perder o senso das experiências concretas que motivaram a crítica, fazendo desta última um simples guarda-chuva para abrigar gestos de vaidade e loas à moda, é sinal de que está mais do que na hora de um freio de arrumação. Naquele momento do dia em que todos os gatos vão ficando pardos, em que a malícia começa a se fazer passar por inteligência, é urgente uma retirada estratégica, um salto analítico para fora do caos. O politicamente correto é algo muito sério para sua crítica ser deixada nas mãos de apresentadores de TV, humoristas e intelectuais de botequim. É preciso que seus entusiastas, que estão por aí mostrando os dentes, sejam forçados a lidar com algo mais consistente do que as piadas do Danilo Gentili ou os arroubos concretistas ("Ariel, Ariadna!") de Pedro Bial.


A Origem do PC e suas Primeiras Críticas

Em seu emprego atual, a expressão "politicamente correto" - ou, se traduzida ao pé da letra, "correção política" (political correctness) - apareceu nos EUA na virada das décadas de 1980 para 1990, e logo se espalhou pelo mundo, primeiro para a Inglaterra, depois para a França, e assim por diante. Ela surgiu, claro está, com sentido derrogatório (ninguém se dizia "politicamente correto"!), funcionando como um rótulo sintético para uma série de tendências ultra-radicais observadas, inicialmente, nos meios escolares e universitários norte-americanos já nos anos de 1960 e 70, e que vinham na esteira da ideologia soixante-huitardista e da contra-cultura, com os seus bem conhecidos "ismos" (multiculturalismo, feminismo, pós-modernismo, pós-estruturalismo, desconstrucionismo etc.). Tratava-se, como observou Dinesh D'Souza, intelectual indo-americano e atual presidente do King's College de NYC, de uma verdadeira "revolução acadêmica" (D'Souza, Dinesh. 1991. Illiberal Education: the politics of race and sex on campus. New York: The Free Press. p. 2).

O pensamento PC combinava duas idéias básicas: do marxismo (em sua versão já frankfurtiana e gramsciana, ou seja, interessada no domínio da cultura), ele absorveu a idéia de que o mundo dividia-se em classes antagônicas, irredutivelmente rivais, e que eram elas os agentes fundamentais da história. A novidade era que, ao conceito de classe, dever-se-iam juntar os conceitos de gênero e raça. A história era não apenas a história da luta de classes (ricos vs. pobres), mas também da luta de raças (brancos vs. negros) e de gênero (homens vs. mulheres, héteros vs. gays). Do pragmatismo e do desconstrucionismo, o PC incorporou a noção de que não existe realidade para além da linguagem, com a consequente sugestão de que seria possível revolucionar a realidade (combater injustiças, por exemplo) por meio de uma revolução semântica: era preciso que os opressores, que até então haviam imposto à esfera da linguagem e da cultura os valores de sua classe/raça/gênero, fossem derrotados e substituídos pelos oprimidos, que, para tanto, deveriam impor novos padrões de fala e de comportamento.

Com isso, começaram a surgir as chamadas "políticas de identidade", segundo as quais as pessoas já não seriam mais classificadas como indivíduos, mas como representantes de determinada classe, raça ou gênero. A pergunta "quem é você?" já não deveria ser respondida com "eu sou fulano de tal" e ponto, mas com "eu sou fulano de tal, afro-americano, do sexo masculino" ou "eu sou sicrana, latina, do sexo feminino e lésbica" etc. Nas grades curriculares de escolas e universidades, surgiram disciplinas organizadas conforme raça ou gênero - "história afro-americana", "literatura homossexual" etc. -, ministradas como alternativa aos cursos tradicionais, considerados, a partir de então,  culturalmente colonialistas e tendenciosos em favor dos opressores. Muitas palavras também deveriam mudar, pois supostamente traduziam, em sua forma mesma, a supremacia do gênero/raça dominante. Nesse sentido, algumas feministas radicais chegaram a propor a substituição da palavra history por herstory: a história já não mais seria monopólio dele (o abominável macho, caucasiano e heterossexual), passando agora ser dela (a fêmea, de preferência não-caucasiana e, evidentemente, lésbica).

Nos EUA, na Inglaterra e na França, as críticas ao PC não demoraram a surgir. E, ao contrário do que ocorreu no Brasil, elas partiram inicialmente de intelectuais e acadêmicos, sobretudo do campo conservador, que se dedicaram a pesquisar seriamente o assunto e a refletir sobre suas consequências. O livro de Dinesh D'Souza mencionado há pouco tornou-se um best-seller, assim como um antecessor seu, The Closing of the America Mind, do filósofo classicista Allan Bloom (cf. Bloom, Allan. 1987. The Closing of the America Mind: How Higher Education has Failed Democracy and Impoverished the Souls of Today's Students. New York: Touchstone). Muitas obras vieram depois, dentre as quais eu destacaria Tenured Radicals: How Politics has Corrupted Our Higher Education, do crítico de arte Roger Kimball (Chicago: Ivan R. Dee, 1990). Na Inglaterra, temos The Retreat of Reason: Political correctness and the corruption of public debate in modern Britain, de David Conway e Anthony Browne (London: Civitas, 2006) e, na França, L'École des Barbares, de Françoise Thom e Isabelle Stal (Paris: Julliard, 1985), que está traduzida para o português

Além destes estudos mais direcionados, alguns pesos pesados do universo cultural anglófono, como a escritora Doris Lessing, por exemplo, dedicaram algumas linhas aos males do PC. No ensaio intitulado "Censorship", Lessing escreve:


"A mais poderosa tirania mental no que chamamos de mundo livre é o Politicamente Correto, que é tanto e imediatamente evidente, observado em toda parte, quanto invisível, qual um gás venenoso, pois suas influências estão frequentemente distantes da fonte originária, manifestando-se como uma intolerância generalizada" (Lessing, Doris. 2004. Time Bites: Views and Reviews. New York & London: Harper Collins. p. 76).

Para Lessing - autora, curiosamente, de The Golden Notebook, novela que, contra a sua vontade, tornou-se uma espécie de ícone do feminismo -, o Politicamente Correto é uma herança cultural do Comunismo soviético, com todo o seu conhecido aparato técnico de lavagem cerebral e polícia de pensamento, que os líderes comunistas utilizavam pari passu a formas mais tradicionais de censura:


"A submissão ao novo credo não teria se dado tão rápida e profundamente se a rigidez comunista não tivesse, por toda parte, permeado as classes letradas, pois não era preciso ser um comunista para absorver o imperativo de controlar e limitar: as mentalidades já haviam sido amplamente expostas à ideia de que o livre pensamento e as artes criativas deveriam submeter-se às altas autoridades da política" (ibid. p. 77).

A intuição da escritora vai na mesma direção de alguns argumentos literários célebres, como os de George Orwell, cuja distopia 1984 vislumbrava um mundo em que um mecanismo análogo ao PC era empregado pelo Partido totalitário Ingsoc para controlar a linguagem pública e, então, progressivamente, o pensamento das pessoas. O Estado utilizando o PC para seus próprios fins: eis o cenário tenebroso descrito por Orwell. E, como sugeriu o poeta e dramaturgo austríaco Hugo von Hofmannsthal, nada surge na realidade política se não surgiu, antes, na literatura.

O Fundamento Ético das Críticas

Todas as críticas ao PC acima mencionadas têm algo em comum: elas lidam com as implicações daquela ideologia no terreno da Ética. Baseados nas transformações radicais que vinham observando, aqueles autores sugeriam que o PC, não obstante as possíveis boas intenções de alguns de seus propositores, promoviam, na prática, uma série de injustiças e distorções de valor. Nos EUA, em particular, o PC parecia romper brutalmente com a tradição do movimento pelos direitos civis. Enquanto, num momento em que os negros eram espancados e mortos por racistas brancos em diversas cidades norte-americanas, Martin Luther King falara de valores universais, de anti-racialismo e de fraternidade - fazendo valer o célebre princípio constitucional de 1776, segundo o qual "all men are created equal" -, o PC investia na divisão racial, no conflito e na segmentação. E pior: tudo feito de maneira histriônica e irrefletida, num clima de acirramento de tensões e "caça às bruxas". Citando Doris Lessing mais uma vez, pode-se dizer que o PC foi o instrumento de "histéricos políticos, que fizeram dele um novo dogma".

E as injustiças causadas pela difusão do PC não tardaram a aparecer. Como bem documentam os livros de Bloom, D'Souza e Kimball, as escolas e universidades americanas passaram a adotar o critério do "dois pesos, duas medidas". Alunos negros, ou hispânicos, por exemplo, começaram a ser premiados com uma série de privilégios, tais como o de serem aprovados com notas inferiores às de alunos brancos e asiáticos, e receberem incentivos financeiros por seu desempenho acadêmico, incentivos vedados, por sua vez, aos demais alunos. 

Mas injustiças politicamente corretas não se restringem aos EUA. Na Inglaterra, não faz muito tempo, um estudo oficial revelou que diversas escolas estão banindo o tema do Holocausto das aulas de história, com receio de ofender os alunos muçulmanos, cujo corpo de crenças incluiria a negação daquele episódio histórico (ver aqui). Não poderia haver exemplo mais claro das distorções éticas e inversões de valores que o PC é capaz de promover: a eventual e absurda suscetibilidade de uma determinada comunidade étnico-religiosa passa a ser um valor mais elevado do que a verdade histórica, o direito à informação dos demais alunos e, por último, mas não menos importante, o direito dos alunos judeus de conhecer uma parte importante da história de seus antepassados.

O pensamento PC é, portanto, uma cópia de segunda mão, pois que meramente formal, seletiva e talhada para a ostentação pública, do autêntico senso de justiça. Quando as pessoas passam a abdicar de um juízo responsável sobre a realidade, abandonando o tribunal íntimo e inviolável de sua consciência e passando a adotar critérios político-ideológicos para a avaliação do Bem e do Mal, do Certo e do Errado, elas estão no caminho de se tornarem PCs. Entre elas e suas consciências, anteporão um palanque mental de onde não mais saberão descer. 

O PC, que nada mais é, portanto, do que uma corrupção político-ideológica da Ética, julga conforme categorias ideais previamente definidas como "culpadas" ou "inocentes", e não de acordo com a realidade observável. Assim, se alguém classificado de antemão como "inocente" comete alguma injustiça ou violência contra alguém classificado como "culpado", a rigidez interpretativa PC não permite a seus adeptos abandonar o critério. Deste modo, "oprimidos" serão sempre "oprimidos", mesmo quando eles próprios oprimem; e "opressores" serão sempre "opressores", mesmo quando vítimas de opressão. Racistas não são aqueles que cometem racismo, mas aqueles que pertencem a uma dada e imutável categoria de classe/raça/gênero. Agressores não são aqueles que cometem agressão, mas sim aqueles que, antecipada e inexoravelmente, foram incluídos na categoria dos "agressores" pelo pensamento PC. Um negro que discrimine racialmente um branco, por exemplo, não é racista, como o seria um branco que discriminasse um negro. Isso não é nenhum exagero. Adeptos do PC, incluindo  ministros e chefes de Estado, dizem essas coisas e agem o tempo todo com base nesse critério (ver um exemplo). E, quanto mais reproduzem essa mímica grotesca do senso usual de justiça, mais convictos estão da bondade de suas almas, e mais histéricos bradam aos quatro ventos a absoluta urgência da adoção do novo critério. Em transe, com os olhos vidrados de um êxtase quase religioso, os PCs avançam sobre os seus críticos, classificados naturalmente, pela própria lógica fácil do esquematismo mental, como inimigos da Justiça e do Bem. É justamente por ser uma patologia social que opera no terreno da Ética - e não por qualquer outra razão - que o PC foi atacado por seus críticos euro-americanos. Ou seja, mais do que uma simples implicância ou rabugice, a crítica ao PC era movida por razões sérias, ainda que pudessem, eventualmente, ser tratadas com humor.


O Problema do Estetismo no Brasil: Luiz Felipe Pondé e o PC

Já no Brasil a coisa foi bem diferente. Quanto mais o tempo passa, mais parece dar razão aos diagnósticos dos filósofos e diplomatas Mário Vieira de Mello e José Osvaldo de Meira Penna, que classificaram a mentalidade brasileira, respectivamente, de "estetista" e "lúdica". Vieira de Mello, em particular, alertava especificamente, já em 1963, para a incapacidade da Intelligentsia brasileira em lidar com discussões filosóficas no campo da Ética, e a tendência a deslocar qualquer dicotomia de tipo Certo vs. Errado (ou Bem vs. Mal) para dicotomias de tipo Gosto vs. Não Gosto (ou Bonito vs. Feio). No que se refere ao PC, a dimensão ética da coisa passou a léguas de distâncias dos debates públicos brasileiros. Quando criticado, o PC o foi numa clave essencialmente estética, sendo que os adjetivos mais usualmente associados a ele por seus detratores foram "chato" e "brega". Mais do que injusto, perigoso ou moralmente absurdo, tudo o que se conseguiu dizer de negativo sobre o PC aqui no Brasil foi que ele era de mau gosto e démodé.

O filósofo Luiz Felipe Pondé - autor do Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - é um dos raros intelectuais que têm tentado, de modo mais sistemático, questionar a influência do PC no debate público nacional, e é preciso reconhecer-lhe esse mérito, como também o mérito de denunciar a hegemonia do pensamento de esquerda - cada vez mais militante - no ambiente universitário. Nesse sentido, o autor tem escrito coisas interessantes, e mesmo necessárias, num ambiente de pensamento único como o que estamos vivendo. (Faço a ressalva de que desconheço o trabalho mais acadêmico de Pondé, e limito-me aqui a tecer considerações sobre sua atuação como debatedor público). 

Não obstante a sua louvável iniciativa, contudo, parece-me que, em parte por características intelectuais particulares, em parte pelas exigências do meio, Pondé mal tem arranhado a superfície da dimensão ética pertinente ao tema. Suas críticas igualmente privilegiam o aspecto estético, e o próprio filósofo já o reconheceu abertamente numa entrevista (ver aqui). Certamente pela necessidade de chamar atenção para o debate que pretendia iniciar, mas também por uma questão de estilo pessoal, Pondé adotou o tipo de personalidade tão apreciada pela classe falante brasileira: irreverente, histriônica, iconoclástica (ao menos na aparência), tropicalista, rodrigueana (em versão arnaldojaborizada). Ele costuma abusar, então, das frases de efeito, boutades e tiradas sobre a sexualidade humana, conseguindo adentrar num campo cultural mais amplo, e tornando-se uma espécie de Gláuber Rocha da filosofia. E a verdade é que sem essas credenciais, por assim dizer, dionisíacas, dificilmente uma pessoa consegue ingressar na high society artística e intelectual brasileira, onde ser acusado de "careta" por Caetano Veloso ou Arnaldo Jabor equivale a uma sentença de morte pública. (Se Kant vivesse no Brasil,  com sua timidez e seu estilo monótono de vida, ele jamais seria consultado sobre nada, nem mesmo sobre filosofia. Os brasileiros teriam preferido mesmo é o Tom Zé).

Logo, menos por culpa sua do que por uma característica das 'elites culturais' no Brasil, Pondé tornou-se "polêmico", coisa muito fácil hoje em dia, tendo em vista o provincianismo intelectual de nossos formadores de opinião e a espantosa homogeneidade de seu discurso. Quando contaram ao pobre soldado japonês Hiroo Onoda que a Segunda Guerra terminara havia já 30 anos, ele também julgou a informação "polêmica".

Assumindo a imagem do intelectual público brasileiro por excelência - aquele que não vai à praia, mas bebe, fala de sexo e polemiza (ler e estudar, é claro, são secundários como parte daquela imagem!) - Pondé até consegue agradar muitos jornalistas e ser ouvido, mas apenas na condição de entertainer. A jornalista Marília Gabriela, por exemplo, confessa adorar o filósofo, que sempre lhe proporciona boas risadas (ver aqui). Exemplificando bem o "estetismo" de que nos fala Viera de Mello, a jornalista mostrou-se encantada com uma expressão cunhada por Pondé, menos por ter compreendido seu significado, e mais por tê-la achado "bonita" (ver aqui). E Pondé parece dominar a técnica de como deixar felizes Marília Gabriela e outros jornalistas enfadados com o PC. 

No entanto, quando ele se depara com jornalistas dispostos a defender o (e se esconder por trás do) PC, suas respostas estetistas soam fracas e evasivas. Quando entrevistado no programa Roda Viva, por exemplo, Pondé deparou-se precisamente com alguns jornalistas daquele tipo, que operam no terreno da ética, ainda que, em seu caso, trate-se da pseudo-ética farisaica manifesta no PC. Diante daquelas expressões faciais distorcidas por um misto de indignação de palanque com perplexidade sardônica, não basta dizer que o PC é brega ou enfadonho. Fosse apenas isso, tratar-se-ia de uma questão de gosto e, como se costuma dizer, gosto não se discute. Naquele tipo de circunstância na qual Pondé se encontrava, seria preciso, antes de mais nada, remover a máscara política do interlocutor, revelando o lobo por baixo da pele de cordeiro e dissolvendo sua auto-imagem de monopolista da virtude. Mais uma vez, o PC é pernicioso não por ferir o bom gosto, mas por ser intrinsecamente injusto e capaz de promover trágicos efeitos. Seus entusiastas não devem ser cobrados numa chave estética, mas numa chave ética. Seu problema não é o de serem bregas ou chatos, mas inconsequentes e irresponsáveis, tentando suprir com voluntarismo moralista as exigências de uma consciência madura.


Consequências Nefastas do Racialismo PC nos EUA

Nos EUA, as consequências nefastas do PC na questão racial começam a se fazer sentir de maneira dramática. No seu mais recente livro, intitulado White Girl Bleed a Lot: The Return of Race Riots to America and How the Media Ignore It (North Charleston: CreateSpace, 2012), o escritor Colin Flaherty elenca e analisa a ocorrência de centenas de ataques perpetrados por turbas de jovens negros contra pessoas quase sempre brancas ou asiáticas em várias cidades norte-americanas nos últimos dois anos. Contrastando vídeos enviados ao YouTube e depoimentos de vítimas com a cobertura jornalística e o discurso oficial das autoridades, Colin denuncia a ocultação deliberada do componente racial por parte da mídia e do poder público. Para uma sociedade tão marcadamente racializada, na qual fala-se o tempo todo em "história negra", "música negra", "arte negra", "literatura negra", "presidente negro" etc., parece que a única entidade interdita pelos meios de comunicação é o crime racial cometido por negros. Esse é tabu. Como sugeriu o brilhante intelectual negro Thomas Sowell, "não seria politicamente correto ou politicamente conveniente em ano eleitoral" noticiar aquele tipo de racismo (ver aqui). Outro intelectual negro, o economista Walter Williams, vai mais longe, sugerindo que os negros estão se tornando, de fato, "os novos racistas da America" (ver aqui). E, no entanto, a imprensa PC continua agindo como se estivéssemos em pleno Mississipi da década de 1930.

O título do livro de Flaherty - "A garota branca sangra muito" - refere-se ao comentário feito por uma jovem negra instantes após agredir uma menina branca no rosto, em Milwaukee, num ataque gratuito promovido por cerca de 100 jovens negros contra adolescentes brancos que faziam um piquenique durante o feriado de 4 de Julho (ver aqui). O padrão se repetia em todas as partes: na Filadélfia, em Chicago, em Nova Iorque, em Miami, em Las Vegas etc., jovens negros reuniam-se para espancar, roubar, esfaquear, estuprar pessoas inocentes, apenas por serem brancas. Em 2010, no Skidmore College, em Nova Iorque, quatro estudantes negros berravam insultos raciais enquanto espancavam um homem branco, por ele estar jantando com um homem negro (ver aqui). Em Denver, em 2009, um grupo de cerca de 30 jovens negros atacou, num período de 5 meses, vários homens brancos e latinos, que eram aleatória e gratuitamente agredidos na cabeça, ofendidos e roubados (ver aqui e aqui).  Em São Francisco, cinco negros espancaram até a morte um idoso chinês de 83 anos. Depois disso, ainda empurraram uma mulher de uma plataforma de trem (ver aqui). Em Des Moines (Iowa), durante a Feira Estadual de 2010, pessoas de pele clara foram covardemente agredidas, naquilo que, segundo registros policiais, os agressores chamaram jocosamente de "Beat Whitey Night", ou "noite de espancar os branquelos" (ver aqui e aqui). Outra vez em Milwaukee, depois que dezenas de jovens negros tentaram arrombar a porta do seu carro, uma vítima relatou a um jornal local: "Eles estavam atacando sem motivo. Foi 100% racial. Havia um carro com um casal negro ao meu lado, e estes garotos não fizeram nada com eles. Eles olhavam pelo para-brisa para ver quem era branco e quem era negro. Posso garantir" (ver aqui). E esses são apenas uns poucos exemplos colhidos entre centenas de ocorrências.

Mas um caso particularmente revelador da lógica perversa do PC se deu numa escola de ensino médio da Filadélfia. Depois de anos de leniência por parte da direção de uma escola diante dos insultos racistas, agressões e humilhações diárias impostas por jovens negros a estudantes asiáticos, o esperado aconteceu. Em Dezembro de 2009, uma multidão de alunos negros agrediu violentamente um grupo de 30 alunos asiáticos, mandando 13 deles para o hospital, alguns em estado grave. Somente após a coisa ter chegada a esse ponto, os alunos asiáticos finalmente se revoltaram e decidiram organizar uma greve. A coisa chegou aos jornais locais. Funcionários da escola negaram o componente racial das agressões e, veladamente, culparam os estudantes asiáticos. A CEO da escola, Arlene Ackerman (ela própria negra), chegou a sugerir, sem quaisquer evidências para tanto, que os ataques fossem talvez uma resposta a agressões anteriores promovidas por asiáticos contra negros e que, portanto, não seria justo responsabilizar apenas uma raça. Além disso, disse a diretora, ela não gostaria de "criminalizar" daquela maneira pessoas tão jovens (ver aqui).

Os estudantes asiáticos reportaram que funcionários da escola faziam vista grossa e, por vezes, até mesmo participavam do assédio moral que precedia a violência. A diretora LaGreta Brown foi citada por atitudes discriminatórias, em particular por se referir às pretensões jurídicas dos asiáticos como "A Agenda Asiática". Os alunos contaram que os seguranças da escola nunca fizeram nada para impedir as agressões. Alguns, inclusive, faziam troça da dificuldade dos asiáticos recém-chegados em aprender o idioma: "Ei, China! Dragon Ball! Você é o Bruce Lee? Aprenda a falar inglês" (ver aqui).

Diante do caso, a Direção da escola resolveu abrir uma investigação por conta própria. Para conduzir o processo, foi contratado o juiz federal aposentado James Giles (negro), o qual afirmou que limitaria a investigação a um período de não mais que dois dias antes do ataque, pois se retrocedesse mais, esse foi o argumento, isso poderia gerar problemas e conflitos no presente (ver aqui). Nada mais disse e nem mais nada lhe foi perguntado. Mas os advogados dos estudantes asiáticos questionaram a acuidade e legitimidade do relatório final. Segundo eles, o relatório tinha um escopo "estranhamente limitado", ignorando um longo histórico de violência racial de negros contra asiáticos na escola. O Departamento de Justiça, enfim, entrou no caso, dando razão às alegações dos advogados dos alunos asiáticos, e concluindo que, de fato, a escola vinha ignorando aquele histórico.

Mas o pior veio depois. Já não podendo negar a gravidade do caso, a escola teve uma brilhante idéia, que revela bem a que níveis de abjeção moral pode conduzir a ideologia PC. Para solucionar o problema da violência racial de negros contra asiáticos, a Direção da escola achou por bem distribuir panfletos - pasmem! - aos estudantes asiáticos, instruindo-os a como evitar antagonizar seus colegas negros com utilização de vocabulário racista. O título do panfleto? Staying Safe, "mantendo-se seguro". Informa uma reportagem sobre o evento:


"Os líderes [comunitários] distribuíram uma lista de insultos racistas e disseram aos estudantes: é errado! E vocês precisam saber que insultos raciais podem evoluir rápida e violentamente. Imigrantes podem ser muito limitados no inglês para reconhecer uma linguagem racista - e o perigo que ela pode representar" (ver aqui).

Em suma: quem mandou não saber inglês e irritar os pobres alunos afro-americanos, que, diante de tal crueldade, não tiveram outra alternativa que não a de espancar covardemente os asiáticos racistas? A inversão entre vítimas e agressores aí é por demais patente para que fosse preciso insistir nela. Menos, é claro, para um intelectual PC. E, nessas horas, sempre aparece um.

O sociólogo Elijah Anderson, de Yale, foi convidado para explicar todo o caso. "A escola talvez seja imaginada como uma espécie de feudo negro por alguns estudantes afro-americanos", disse o especialista em convivência urbana. "Os intrusos - no caso, os asiáticos - podem ser intimados a responder por qualquer mau passo dado nessa situação. Você tem aí o preconceito racial se desenvolvendo como um senso de posição grupal, um apelo ao direito de propriedade sobre áreas do feudo".

Anderson, que frequentemente utiliza Filadelfianos em suas pesquisas, acredita que as tensões escolares dizem respeito a questões de dominação. "É uma coisa humana", ele continua. "Podem ser os asiáticos os excluídos. Podem ser os negros. Podem ser brancos, italianos, judeus ou o que for, compreende? Isso não se restringe a asiáticos e negros" (ver aqui). Trata-se de uma tese muito interessante. Só faltou o sociólogo nos brindar com alguma notícia sobre turbas de asiáticos, judeus ou italianos espancando negros nas escolas norte-americanas nos últimos anos.

Qualquer mentalidade sadia, não intoxicada pelo PC, seria capaz de enxergar a aberração ética cometida contra os asiáticos naquele caso. Um blogueiro negro da Filadélfia disse-o muito bem:


"É chegada a hora em que nós, afro-americanos, não podemos mais fazer ouvidos de mercador diante desse tipo de história, negando-a ou silenciando sobre ela. Todos sabemos que Al & Jesse [Al Sharpton e Jesse Jackson] sairiam por aí feito loucos se estudantes asiáticos, brancos ou de qualquer outra cor estivessem atacando afro-americanos e gritando epítetos raciais. No entanto, o silêncio deles é ensurdecedor quando se trata de um caso como esse, e isso é injustificável. Não há desculpa, e esses jovens estão sendo mal-encaminhados graças à nossa falha coletiva em condenar esse tipo de comportamento" (ver aqui).

O blogueiro tocou no ponto central: o racialismo PC é, sem sombra de dúvida, uma das principais causas para o comportamento agressivo, irresponsável e auto-indulgente de muitos jovens negros nos EUA. Evidentemente, essa causa nunca é cogitada, pois os luminares do PC jamais assumiriam sua parcela de responsabilidade no caos social gerado por suas brilhantes ideias e ações. Por que o fariam, se é muito mais fácil e rentável condenar o sistema capitalista? Como dissemos antes, o PC produz uma divisão estanque, alienada e distorcida entre "culpados" e "inocentes". No caso da escola da Filadélfia, a coisa ficou cristalina: os negros são inimputáveis. Mesmo quando cometem violência racial, não são os verdadeiros culpados.


O PC e o Incentivo à "Luta de Raças"

Mas os adeptos do racialismo PC não costumam pecar apenas por omissão. Eles também pecam pela ação, como quando incitam sem pudor o ódio e a violência raciais. Vejamos dois exemplos.

Em fevereiro de 2012, na Flórida, houve o caso do adolescente negro Trayvon Martin, morto pelo vigia George Zimmerman, de origem hispânica. Martin usava um capuz, o que despertou a suspeita de Zimmerman, que o seguiu e, após entrar em confronto corporal com o adolescente, acabou assassinando-o.

Antes mesmo que as investigações tivessem início, e num flagrante contraste em relação aos mencionados crimes cometidos por jovens negros, o incidente foi, neste caso, interpretado pela grande imprensa norte-americana como manifestação evidente de racismo. Personalidades, artistas e políticos - entre eles, é claro, Al Sharpton (que, atualmente, virou uma espécie de conselheiro da Casa Branca para assuntos raciais) e Jesse Jackson, como o blogueiro acima citado antecipara - mobilizaram-se de maneira impressionante, promovendo uma autêntica tempestade em copo d'água. O congressista Bobby Rush, em plena sessão legislativa, vestiu um capuz em referência a Trayvon Martin, e o capuz virou, então, um poderoso símbolo da mobilização pelo combate ao racismo contra os negros nos EUA (ver aqui). Como bom político demagogo, o presidente Barack Obama não podia deixar de capitalizar politicamente sobre o ocorrido. "Se eu tivesse um filho, ele seria como Trayvon", disse o presidente (ver aqui). De uma hora para outra, graças a uma espécie de histeria coletiva muito bem induzida pela imprensa, pelo show business e pela Presidência da República, o imigrante hispânico George Zimmerman foi subitamente convertido num símbolo da supremacia branca nos EUA.

A versão que se pretendia veicular - e que até hoje é aceita sem ressalvas pelos órgãos de imprensa no Brasil - era que Zimmerman suspeitou de Trayvon por ele ser negro. Segundo o jornal O Globo, por exemplo, "Zimmerman, branco, que ocupava a função de vigia voluntário de um bairro, considerou-o suspeito e atirou" (ver aqui). Nossos jornalistas, encharcados de PC até a medula, embarcaram docemente na versão do crime com motivações racistas. Ocorre que aquela versão já foi completamente desacreditada nos EUA, e o próprio fato de Zimmerman ter sido processado por homicídio de segundo grau (ou seja, não premeditado) o comprova. A versão foi desacreditada graças a uma série de eventos que ocorreram entre a suspeita de Zimmerman e o tiro fatal que vitimou Martin.

Antes de resolver seguir o adolescente, Zimmerman telefonou para o número de emergência 911 e falou com um policial. No decorrer da ligação, travou-se o seguinte diálogo:


"ZIMMERMAN: Esse cara não parece estar bem intencionado. Ou está drogado ou algo do tipo. Está chovendo e ele fica só perambulando, como se procurasse alguma coisa. 
POLICIAL: Certo. E esse sujeito - ele é negro, branco ou hispânico?
ZIMMERMAN: Parece ser negro" (ouvir aqui).

De posse da gravação, a rede de televisão NBC decidiu editar o trecho, e a edição acabou sendo o estopim do barril de pólvora racial que explodiu na sequência. Na versão da NBC, a fala de Zimmerman se transformou em: 


"Esse cara não parece estar bem intencionado (...) Parece ser negro" (ver aqui).

Fica claro que, originalmente, o aspecto racial não havia sido introduzido por Zimmerman, mas pelo policial. No entanto, a NBC não hesitou em fazer de Zimmerman um racista, introduzindo, de maneira artificial e espúria, um sério agravante ao crime por ele cometido. 

Após a farsa ter sido revelada, a NBC emitiu uma nota de desculpas, qualificando o caso, mui convenientemente, de mero "erro de produção" (ver aqui). Mas, àquela altura, a irresponsabilidade criminosa da emissora já havia produzido um estrago. Os PCs ficaram histéricos e fizeram do incidente um cavalo de batalha. (Nesse momento, o leitor poderia sentir-se tentado a perguntar: mas e o jornal O Globo, terá ele publicado a falsificação e o pedido de desculpas da NBC? E a resposta deveria ser óbvia para aqueles que conhecem minimamente o ambiente cultural em que estamos vivendo).

Mas, além da ligação para o 911, um outro evento determinante ocorreu antes que o vigia atirasse em Trayvon Martin. Desde o início do processo, o acusado alegou legítima defesa. Zimmerman contou que levava a pior na briga com Martin, que, maior e mais forte, chegou a bater com a sua cabeça sucessivas vezes contra o meio fio. 

A versão de Zimmerman foi logo desacreditada, ainda mais depois de divulgado um vídeo em que o vigia, logo após ser preso, não apresentava ferimentos aparentes (ver aqui). Mais uma vez, as imagens serviram de estímulo à sanha racialista dos formadores de opinião. E o clima de tensão racial só foi se intensificando, sob os auspícios da mídia e do próprio governo. Militantes do grupo ultra-esquerdista e racista Panteras Negras - que, surgido nos anos 60, havia sido extinto em 1982, mas acabou sendo revigorado recentemente - chegaram a oferecer uma recompensa de US$ 10 mil pela captura de Zimmerman. Mikhail Muhammad, líder do grupo, avisou que formaria uma milícia de milhares de negros para encontrar o vigia e ainda anunciou: "É olho por olho, dente por dente" (ver aqui).

Alguns dias depois, foram divulgadas novas imagens, que mostravam nitidamente os ferimentos na parte de trás da cabeça de Zimmerman, que teve também o nariz quebrado na briga com Martin. Testemunhas ouvidas confirmaram a versão de Zimmerman. Por fim, um relatório médico comprovou o nariz quebrado, os cortes na cabeça e hematomas nos olhos (ver aqui). Dessa vez, ainda que com muito atraso, até O Globo deu a notícia, embora continuasse omitindo o papel da fraude da NBC na construção da hipótese de motivação racial para o crime. Apegada passionalmente à tese do crime racial, a edição do jornal não deu o braço a torcer: "Mesmo com os novos indícios, ainda não se sabe exatamente o que ocorreu e se o crime teve motivação racial, como argumentam a família do garoto e organizações americanas" (ver aqui). Mas, ao contrário do que diz O Globo, já se sabe exatamente o que aconteceu. George Zimmerman suspeitou do adolescente encapuzado, seguiu-o e, após ter entrado em confronto corporal com ele, matou-o com um tiro no peito. 

É evidente que Zimmerman deve ser punido pelo crime que cometeu. Foi ele quem seguiu Martin e foi ele quem provocou a briga. Foi ele quem, finalmente, acabou matando Martin, uma pessoa inocente até prova em contrário. Mas Zimmerman não deve ser punido pelo crime que não cometeu - o crime de racismo. Não há nenhuma evidência que indique ser Zimmerman um supremacista branco, um caçador de negros, um herdeiro da Klu Klux Kan. A histeria racial em torno do caso foi deliberadamente produzida por pessoas irresponsáveis, incluindo profissionais de imprensa, artistas, políticos e o próprio presidente dos EUA. Zimmerman talvez seja condenado por homicídio [nota posterior: ele foi absolvido, tendo sido aceita a tese de legítima defesa]. Mas a pergunta que fica é: e pelo incitamento explícito à tensão racial, alguém será punido? Tal incitamento, acrescente-se, não se dá apenas em casos de grande repercussão pública, como o de Treyvon Martin. Ele tem sido uma rotina silenciosa nas escolas e universidades norte-americanas. 

Todos no Brasil hão de lembrar do adolescente sul-coreano Cho Seung-hui, que, em abril de 2007, matou 32 pessoas e feriu outras 25 no Instituto Politécnico da Virgínia (mais conhecido como Virginia Tech), em Blacksburg, Virgínia (EUA). Passada a tragédia, o estado de choque inicial deu lugar à tradicional busca por explicações que se segue a casos desse tipo. Quem era Cho Seung-hui? O que pode tê-lo levado a praticar aquela monstruosidade? Teria sido possível, antes da chacina, perceber indícios da mente perturbada do adolescente? 

Naquele contexto, foram divulgadas peças teatrais escritas por Cho para suas aulas de inglês (ver aqui). O conteúdo das peças era perturbador. Uma mãe brandindo uma serra elétrica, um garoto tentando assassinar seu padrasto por meio de uma barra de cereal empurrada em sua garganta, adolescentes imaginando como matar o professor que os havia estuprado... Esses eram alguns dos bizarros personagens criados por Cho. Depois da divulgação do material, muitos questionamentos surgiram sobre o porquê da escola não ter percebido, já naquele momento, a existência de um distúrbio psíquico grave naquele seu aluno (ver aqui).

Todos no Brasil, dizia eu, se lembram de Cho Seung-hui. Mas quase ninguém se lembra de Nikki Giovanni, professora de Cho na Virginia Tech. Por ser uma das mais respeitadas professoras de Literatura Inglesa da escola, Giovanni foi escolhida para proferir o discurso em homenagem aos mortos na tragédia. "Nós somos a Virginia Tech!", disse a professora diante de uma plateia emocionada.

Além de professora de inglês, Nikki Giovanni é poetisa e ativista radical do movimento negro. No antebraço esquerdo, ela tem uma tatuagem com os dizeres "Thug Life" ("vida bandida"), feita em homenagem ao rapper Tupac Shakur - a quem Giovanni chama carinhosamente de "Pac" -, assassinado por outros rappers num tiroteio em 1997 (ver aqui e aqui). Para Giovanni, Tupac Shakur - um delinquente morto por outros delinquentes num conflito envolvendo alguma delinquência - é um mártir, no mesmo nível de um Martin Luther King ou um Emmett Till. Em muitos de seus poemas, a professora de Cho se dedica a incitar o ódio racial contra brancos, judeus e protestantes. Num deles, intitulado The True Import of Present Dialog, Black vs. Negro, lê-se o seguinte: 

"Não temos de provar que somos capazes de morrer. Temos de provar que somos capazes de matar (...) Crioulo [nigger], você sabe matar? Você sabe matar um branquelo [honkie], crioulo? (...) Você sabe derramar sangue? É capaz de envenenar? Sabe esfaquear um judeu? Sabe matar, hein? (...) Você sabe atropelar um protestante com o seu El Dorado 68? (...) Você sabe urinar numa cabeça loira? Sabe cortá-la fora?..." (ver aqui).

O estilo é curiosamente parecido com aquele utilizado por Cho Seung-hui na fala de um de seus atormentados personagens: "Devo matar Dick. Devo matar Dick. Dick deve morrer. Matar Dick (...) Você acha que eu não sei matá-lo, Dick?" (ver aqui). Num outro poema, Nikki Giovanni celebra o espírito revolucionário, imaginando um kit para crianças - chamado Burn Baby -, que as ensinasse a montar um coquetel Molotov. Noutro ainda, a poetisa abre o coração: "E ocorreu-me que talvez eu não deva mais escrever, mas limpar minha arma e conferir meu estoque de querosene".

No artigo "A professora de ódio da Virginia Tech" (ver aqui), o jornalista Steve Sailer analisa aqueles e outros escritos de Nikki Giovanni, esmiuçando o seu background ideológico. Comentando o artigo de Sailer, um leitor observou com muita perspicácia: "Fico me perguntando quantas vezes Cho-Seung-hui ouviu na Virginia Tech a expressão 'privilégio branco'?". É difícil saber ao certo, mas uma rápida consulta no website da escola revela que, só ali, a expressão aparece mais de 90 vezes (ver aqui).

Uma Conclusão Inevitável

Como imaginar que professores com esse tipo de radicalismo ideológico, espalhados pelas escolas dos EUA, não tenham nenhuma responsabilidade sobre o ódio anti-branco que motivou Cho-Seung-hui e motiva outros jovens a cometer atos de violência? É claro que os poemas de Nikki Giovanni não podem ser tomados como causa imediata dos atos do adolescente sul-coreano, um caso evidente de distúrbio mental. Mas é claro também que o perturbado adolescente encontrou nesse tipo de discurso um combustível a mais para o seu ódio insano. Como escreveu o filósofo Olavo de Carvalho sobre o caso, "enfie todo esse ódio na mente de um maluco e ele só não sairá matando gente se estiver dopado" (ver aqui). 

Se a ideologia radical de Giovanni e seus pares não tem nada a ver com o caso, muito menos o teriam o sistema capitalista, Wall Street, o "privilégio branco", o comércio de armas ou o Tea Party, tradicionais bodes-expiatórios citados por ocasião de tragédias como a de Virginia Tech e outros casos de violência urbana. A relação de causa e efeito é muito mais direta no primeiro caso do que no segundo. É bem mais difícil conceber a violência racial negra descrita no livro de Colin Flaherty como reação às injustiças sociais do capitalismo do que como resposta positiva aos apelos poéticos de Nikki Giovanni. "Vocês sabem matar um branquelo, hein?" - e os jovens agressores negros respondem: "Sim, professora, sabemos". A mestra, orgulhosa, já pode lhes dar nota 10!

É esse racialismo "do bem", com seu padrão ético de "dois pesos, duas medidas", que muitos PC brasileiros querem implementar definitivamente no país. E é por isso que, tão acostumados a acusar e apontar o dedo para os males do mundo, eles devem ser cobrados frontalmente pelas eventuais injustiças e violência decorrentes de seus belos ideais. Mesmo os bem-intencionados dentre eles deveriam aprender que a simples vontade não faz de ninguém uma pessoa justa. Vimos nos exemplos arrolados ao longo deste post a que ponto a ideologia pode corromper o senso de justiça. Como bem disse William Blake no poema The Everlasting Gospel, "And Caiphas was in his own mind/A benefactor to mankind".

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Pós-Escrito (em 27/07/2012): O pensamento PC é mesmo muito previsível. Quando eu citei o Tea Party entre os bodes-expiatórios preferidos por ocasião de tragédias como as de Virginia Tech, parecia estar adivinhando. Não é que a ABC News arrumou uma maneira de ligar o Tea Party à última tragédia no Colorado, em que um maluco matou 12 pessoas e feriu 58 numa sessão de cinema? (ver aqui). Depois, é claro, com sorriso amarelo, teve de pedir desculpas pela irresponsabilidade (ver aqui).

4 comentários:

  1. O texto muito elucidativo e mostra com clareza o fundamental da questão, que é o desequilíbrio existente entre certas formas de procedimento interpessoais, fazendo com que o radicalismo e a intolerância, ao invés de serem neutralizados, apenas troquem de lado. Traçando uma analogia com a política doutrinária, é mais ou menos como o que fez a Rússia quando ajudou a combater o nazi-fascismo e, uma vez vencido o inimigo, implantou em seu território uma forma de regime tão totalitária e expansionista quanto àquela que criticou e combateu, liderado por Adolf Hitler, em parceria com Mussolini. Sem dúvida a presença mais nociva nessa forma de desequilíbrio social é ado estdo, que traz por detrás de si o abominável jogo de interesses politiqueiros, cujo fim último e a conquista do poder pelo poder, com o fito pré-concebido de nele se perpetuar. jornalino@gmail.com

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    1. Prezado Lino,

      Grato pelos comentários. Na linha do que você disse, há um post neste blog que talvez te interesse. Chama-se "A vitória de Stálin". Segue o link:

      http://obrasileouniverso.blogspot.com.br/2010/10/vitoria-de-stalin.html

      Saudações,

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  2. A arrogância do politicamente correto já começa pelo nome. Correto pra quem? Os caras ambicionam o monopólio do que é o "correto". Se vc não rezar pela cartilha da turma, vc é "incorreto". Lixo!
    Quanto ao post "A vitória de Stalin", é um textaço, devidamente salvo no meu computador! Inclusive tomei conhecimento do documentário "The Soviet Story" através dele. Vi todo o documentário pelos links informados no texto, e terminei comprando-o.
    Flávio, vc demora, mas quando escreve, bota pra quebrar! Parabéns!

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