quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"An-Nakba": O significado da queda de Hosni Mubarak (Parte III)

(Ler Parte II)

Gostaria muito de saber de onde Fernando de Barros e Silva tirou a idéia de que a Irmandade Muçulmana é composta por uma maioria moderada. Gostaria de saber também onde o Globo Online encontrou a informação de que aquela organização é atualmente laica. Seria interessante ainda saber quais as garantias que a sra. Arlene Clemesha tem para oferecer a Israel sobre as intenções pacíficas da Irmandade Muçulmana. Declarações politicamente corretas em programas de televisão, desacompanhadas de qualquer fundamento na realidade, não valem muita coisa nesse caso.


Disse que gostaria de saber todas essas coisas mas, na realidade, isso foi uma peça de retórica. Eu sei exatamente de onde nossos comentaristas colheram a idéia de que a Irmandade Muçulmana tornou-se uma organização moderada e democrática. Eles a colheram nos principais jornais norte-americanos e europeus, como o New York Times ou o Guardian. Esses últimos, por sua vez, colheram-na num artigo publicado em 2007 no Foreign Affairs,  periódico oficial do Council of Foreign Relations (CFR), o mais poderoso think tank norte-americano. Boa parte das idéias em circulação no mercado de opiniões públicas no Ocidente hoje sai do CFR.


Intitulado "The Moderate Muslim Brotherhood", e autorado por Robert S. Leiken e Steeven Brooke, o texto dizia que a organização islâmica tinha abandonado seu passado fundamentalista e que, não sendo mais um bloco monolítico, estaria plenamente capacitada ao diálogo e cooperação com o Ocidente. Escreveram os autores:


"A Irmandade é uma coleção de grupos nacionais com diferentes características, e as várias facções discordam sobre a melhor maneira de conduzir sua missão. Mas todas rejeitam a jihad global, ao mesmo tempo em que encampam as eleições e outros elementos da democracia" (grifos meus).


Criticando o artigo de Leiken e Brooke, Patrick Poole, do Front Page Magazine (ver "Mainstreaming the Muslim Brotherhood"), lembrou que, no próprio ano de 2007, o então líder da Irmandade Muçulmana Mohammed Akef fez comentários nada moderados a respeito do conflito entre Israel e o Hezbollah. Não somente Akef foi um dos primeiros líderes no Oriente Médio a congratular o grupo terrorista por ter violado as fronteiras e capturado dois soldados israelenses, como também declarou que enviaria 10.000 jihadistas para lutar ao lado do Hezbollah contra as forças israelenses. Quando as demais lideranças árabes não seguiram sua proposta de oferta militar ao Hezbollah, Akef declarou: "Se eles não fossem muçulmanos, nós os teríamos matado, porque eles são uma maior ameaça à nação do que Israel". Diante disso, Poole então questionou: 


"Seria interessante saber de que modo Leiken e Brooke explicariam como esse cenário  coaduna-se com sua tese de que a Irmandade Muçulmana - cujo líder supremo prometia 10.000 jihadistas em apoio à organização terrorista Hezbollah, cogitando o assassinato daqueles que não fizessem a mesma oferta - está 'rejeitando a jihad'"


Não há nada de muito estranho no fato de que o CFR ache conveniente dourar a pílula de uma organização anti-americana, posto que, sendo um think tank francamente globalista, qualquer enfraquecimento da posição norte-americana (e também israelense) no cenário internacional lhe é, em alguma medida, interessante. Mas a verdade é que nada na história da Irmandade Muçulmana parece indicar uma disposição para o diálogo com Israel, ou uma postura moderada, ou um interesse sincero pelos problemas da população egípcia. 


Para se ter uma idéia inicial, basta notar que Mustafa Mashhur, principal líder da Irmandade Muçulmana do Egito de 1996 a 2002, escreveu um livro intitulado A Jihad é o caminho (uma tradução está disponível aqui). Na obra, Mashhur explicava os conceitos fundamentais da ideologia da organização, que incluíam propostas como a criação de um Estado islâmico, a dominação mundial pelo Islam, a necessidade da Jihad ("guerra santa") contra os infiéis (rótulo que não inclui apenas Israel, mas o Ocidente como um todo) e a importância de não desistir da Jihad até que um Califado Universal tenha sido imposto.

A Irmandade Muçulmana (Hizb al-Ikhwan al-Muslimun) - cujo lema é "Alá é o nosso objetivo. O profeta é nosso líder. O Corão é nossa lei. A Jihad é nosso método. Morrer em nome de Alá é nossa maior esperança" - surge em 1928, criada por Hasan al-Banna, um jovem professor de 22 anos de idade, simpatizante do nazismo. A organização surge como um movimento revivalista islâmico, na esteira da queda do Império Otomano e da conseqüente extinção do califado como sistema de governo, que havia unificado os muçulmanos por cerca de 400 anos.

Hasan al-Banna baseou sua visão do Islam como um modo total de vida - mais do que simplesmente uma orientação religiosa - no antigo Wahhabismo (conhecido atualmente como "islamismo"). O Wahhabismo é uma tradição de interpretação radical do Corão, surgida no século XVIII pelas mãos de Mohammad Ibn Abdul Al-Wahhab. O Wahhabismo afirmava ser falso qualquer ensinamento acrescido ao Islam após o século X. Os wahhabistas vislumbravam um Império Islâmico liderado por homens santos, guiados exclusivamente pela pura lei islâmica (shari'a). Por esse motivo, eles são chamados de "fundamentalistas islâmicos", sendo o modelo inicial do que se entende hoje por esse termo. 


O movimento wahhabista já justificava o uso de violência para livrar-se dos elementos não-islâmicos no mundo árabe. Na década de 1920, a Muttawa, polícia religiosa do Wahhabismo, promoveu o terror em cidades sauditas. Igrejas, sinagogas e quaisquer locais não-islâmicos de culto foram incendiados e, mais tarde, viriam a ser proibidos.

A partir da década de 1920, o Wahhabismo foi tornando-se cada vez mais radical. Naquele período, a Arábia Saudita recém descobrira suas principais reservas de petróleo e, a partir de então, começou a fazer negócios com o mundo não-islâmico, sobretudo com os EUA. Wahhabistas radicais revoltaram-se contra as relações com o Ocidente. A revolta foi reprimida com violência pelo governo saudita, o que fez com que vários wahhabistas fugissem para outras regiões, especialmente o Egito. 


Naquele país, o Wahhabismo iria se reorganizar na forma da Irmandade Muçulmana, criada por Hasan al-Banna. Do Egito, ela espalhou-se para outras partes do mundo islâmico, sobretudo através da atuação de Amin al-Husseini (outra importante liderança da Irmandade), vindo a tornar-se mais tarde a grande fomentadora de grupos terroristas como o Hamas e a Jihad Islâmica. 


Al-Husseini foi um aliado de Hitler na Segunda Guerra, tendo criado tropas nazi-islâmicas - que chamava de "a nata do Islam" - e participado ativamente do extermínio de judeus. Husseini foi o principal importador da metodologia nazista para o Oriente Médio. Yaser Arafat, aos 17 anos, entrou na Irmandade Muçulmana sob a sua tutela.

Mas o grande nome da Irmandade Muçulmana e do islamismo em geral é, sem sombra de dúvida, Sayyid Qutb (1906-1966), um brilhante pensador egípcio e principal mentor intelectual da moderna Jihad. Qutb exerceu forte influência espiritual e intelectual sobre, entre outros, Ayman al-Zawahiri (membro da Irmandade, aos 15 anos de idade) e Osama bin Laden, os dois principais nomes da rede terrorista al-Qaeda.

Além de exímio exegeta corânico, Qutb era um profundo conhecedor da filosofia ocidental, e suas interpretações do Corão eram mediadas por este filtro teórico. Sendo uma das principais figuras da Irmandade Muçulmana em sua época, Qutb estudou nos EUA, na University of Northern Colorado, onde obteve o título de mestre em educação. 


De modo não muito diferente de pensadores ocidentais modernos como Rousseau, Freud, Marcuse, Foucault e muitos outros, Qutb criticou a decadência espiritual e moral do Ocidente, que ele via como uma espécie de doença contagiosa - jahiliyyah. Esse conceito corânico – que, originalmente, referia-se a um estado de ignorância ou afastamento de Deus, remetendo à condição humana anterior à revelação do Corão ao profeta Mohammed – foi fortemente politizado por Qutb (ver KHATAB, Sayed. 2006. The Political Thought of Sayyid Qutb: The Theory of Jahiliyyah. LondonNew York: Routledge).


O intelectual egípcio alertava para a necessidade de um pensamento renovador, purificado do consumismo e do materialismo. Mas, como afirma Paul Berman (cf. Terror and Liberalism. New YorkLondon: W. W. Norton & Company, 2004, p. 69), Qutb não era um anti-modernista. Ele apreciava a produtividade econômica e o conhecimento científico, apenas afirmava a necessidade de escapar das ilusões das benesses materiais. 


Qutb pretendia formar o que chamava de uma “vanguarda islâmica”, dedicada a construir um novo mundo, no qual não haveria governantes e governados. Em sua visão utópica, as massas, imersas em seus desejos de consumo e paixões mundanas, precisavam ser lideradas por uma elite intelectual e moralmente superior. Tal idéia, é importante sublinhar, não tinha precedentes no pensamento islâmico tradicional. Qutb a colheu no seio do anarquismo europeu dos séculos XIX e XX, adaptando-a à linguagem corânica. (ver GRAY, John. 2003. Al Qaeda and What it Means to Be Modern. New YorkLondon: The New Press, p. 24).

É sempre importante sublinhar que a Irmandade Muçulmana não é uma organização egípcia. Do Egito, ela espalhou-se por todo o mundo muçulmano e, através do pensamento de Qutb e outros, tem sido o berço do fundamentalismo islâmico contemporâneo, com sua metodologia do terror e seus objetivos de eliminar os infiéis e universalizar a Shari'a, a lei islâmica, para todo o mundo. 


Pelo simples exame da atuação de alguns de seus membros ao longo da história, é possível ver que a organização é comprometida até a medula com a Jihad e, conseqüentemente, com o terrorismo (ver esse artigo de Douglas Farah sobre a estrutura global da Irmandade Muçulmana e seu apoio financeiro a grupos terroristas). Cito apenas alguns exemplos: 

1) Abdullah Azzam: ao lado de Muhammad Qutb (irmão de Sayyid Qutb), Azzam lecionou na universidade Rei Abdul Aziz, em Jidda, onde, entre outros alunos, teve ninguém menos que Osama bin Laden. Azzam foi para o Paquistão com seu aluno preferido, para ajudar os mujahidin na luta contra os soviéticos no Afeganistão.

2) Ayman al-Zawahiri: braço-direito de bin Laden, Zawahiri foi educado na Irmandade Muçulmana do Egito.

3) Khalid Sheikh Muhammad: membro da al-Qaeda, e um dos mentores dos antentados de 11 de setembro de 2001, foi formado na Irmandade Muçulmana do Kwait.

Diversos outros nomes poderiam ser citados, mas esses bastam para comprovar que a Irmandade Muçulmana é a grande incubadora da ideologia jihadista. O curioso é que, enquanto esse dado vem sendo negado por boa parte da opinião pública no Ocidente, ele é amplamente reconhecido no próprio mundo árabe. 


Por exemplo, o Dr. Ahmad Al-Rab'i, ex-ministro da educação do Kwait, disse em 2005 que os fundadores dos principais grupos terroristas do Oriente Médio emergiram do "manto" da Irmandade Muçulmana. Já em 2007, Tariq Hasan, colunista do diário egípcio Al-Ahram, alertou seus leitores de que a Irmandade Muçulmana estava preparando uma violenta sublevação no Egito, empregando suas "milícias mascaradas" para replicar o exemplo do Hamas na Faixa de Gaza. Também em 2007, o colunista Hussein Shobokshi, do saudita Al-Sharq al-Awsat, escreveu que "até o presente momento, a Irmandade Muçulmana não ofereceu nada além do que fanatismo, divisões, extremismo e, em alguns casos, banhos de sangue e extermínios" (ver aqui).

Ou seja, na contra-corrente dos veículos de informação no Oriente Médio - que, diante do histórico daquela organização, têm demonstrado uma salutar suspeita em relação à aparência moderada recém assumida pela Irmandade Muçulmana -, uma grande parte dos veículos de informação no Ocidente parecem acreditar sem reservas na versão da organização islâmica. Acho difícil que a mera ignorância ocidental em relação ao islamismo possa explicar esse desencontro de opiniões.

Tendo a concordar com a explicação de Lorenzo Vidino e Daniel Pipes. Ambos os analistas sugerem que a expansão da Irmandade Muçulmana vai além das fronteiras do Oriente Médio, chegando mesmo até a Europa e os EUA. E é claro que, nesse tipo de "guerra de penetração ideológica", se podemos chamar assim, o islamismo sempre levará vantagem. É sempre mais fácil introduzir uma determinada ideologia em países democráticos, que possuem uma tradição de tolerância com opiniões divergentes, do que o contrário.

Desde a década de 1960, explica Vidino, membros e simpatizantes da Irmandade Muçulmana têm migrado para a Europa e, lenta mas incansavelmente, estabelecido uma ampla e bem organizada rede de mesquitas, instituições de caridade e organizações islâmicas. Com uma retórica moderada e falando fluentemente o alemão, o inglês ou o francês, aquelas pessoas ganharam a confiança de governos e da opinião pública européia. Políticos das mais variadas tendências procuram envolvê-las em assuntos que digam respeito ao Oriente Médio, assim como para atrair os votos da comunidade islâmica.

Ocorre que, longe dos holofotes da opinião pública ocidental, e falando em árabe ou turco com seus pares, os membros da Irmandade Muçulmana costumam retornar ao radicalismo e à agenda de sempre: Jihad, Jihad e Jihad. Enquanto seus representantes falam na televisão acerca de diálogo ecumênico e integração, suas mesquitas continuam a pregar o ódio e a alertar seus fiéis sobre os males da civilização ocidental.

Em suma, a guerra de propaganda islâmica, intensificada com a criação da OLP, vem surtindo efeito. Talvez isso explique o sucesso em convencer boa parte do mundo ocidental (especialmente a parcela liberal e anti-colonialista) da justeza da causa islâmica. Não por acaso, muitos formadores de opinião no Ocidente têm descrito a situação no Egito como uma luta inequívoca por direitos civis, humanos, e pela democracia. É claro que muita gente no Egito talvez queira mesmo isso, mas atribuir esses objetivos à Irmandade Muçulmana é uma leviandade.

Ainda que, para os ouvidos ocidentais, a Irmandade Muçulmana venha, já há alguns anos, falando a língua da democracia e da tolerância, internamente eles continuam a defender a velha doutrina wahhabista. É fácil comprovar esse fato. Em setembro de 2010, por exemplo, o guia supremo da Irmandade Muçulmana, Muhammad Badi', proferiu um sermão - reproduzido (somente em árabe!) na página oficial da organização - no qual acusava os regimes árabes e muçulmanos de oprimir suas populações, evitando com isso o confronto com os verdadeiros inimigos - os sionistas e os EUA -, e de ignorar o mandamento de Alá para lançar a Jihad contra os infiéis. Nas palavras de Badi': 

"Os muçulmanos hoje precisam desesperadamente desenvolver uma mentalidade de honra e poder, que os torne capazes de confrontar o sionismo global. Esse movimento não reconhece outra linguagem além da força, e os muçulmanos devem, então, enfrentar o ferro com ferro, e os ventos com tempestades ainda mais violentas. Eles precisam compreender de uma vez por todas que o progresso e a mudança buscados pelas nações islâmicas só podem ser atingidos através da Jihad e do sacrifício, mediante o surgimento de uma geração jihadista que anseie pela morte assim como os inimigos anseiam pela vida" (ver aqui).

Diante dessa declaração, vinda da boca da maior autoridade da organização islâmica, a tese dos articulistas do CFR - qual seja a de que todas as correntes da Irmandade Muçulmana rejeitam a jihad global - soa cada vez mais estapafúrdia. Não houve uma mudança significativa na orientação ideológica do grupo desde seu início até os dias de hoje. 


Compare-se, por exemplo, as palavras de Muhammad Badi' àquelas proferidas por Sayyid Qutb em sua obra-prima In the Shades of the Qur'an (fī ẓilāl al-qur'ān) - escrito entre os anos de 1951 e 1965, enquanto Qutb estava preso no Egito, acusado de ter planejado o assassinato do presidente Gamal Abdel Nasser. Comentando a sūrah 2 do Corão (intitulada "a novilha"), Qutb afirmara então:

"A vida é caracterizada sobretudo pela atividade, crescimento e persistência, enquanto a morte é o estado de total perda de função, de completa inércia e ausência de vitalidade. Mas a morte daqueles que são assassinados pela causa de Deus confere um maior ímpeto à causa, que continua a pulsar em seu sangue. Sua influência sobre aqueles que deixou para trás também cresce e se espalha. Assim, após a morte, eles permanecem uma força ativa, moldando a vida de sua comunidade e lhe oferecendo um rumo. É nesse sentido que essas pessoas, tendo sacrificado suas vidas em benefício de Deus, mantêm sua existência ativa na vida cotidiana... Não há um real sentido de perda em sua morte, pois elas seguem vivendo" (citado por Paul Berman em Terror and LiberalismNew York & London: W. W. Norton & Company. 2004, p. 102).

Note-se que, nos últimos 60 anos, pouca coisa mudou no discurso real da Irmandade Muçulmana. De Hasan al-Banna, Amin al-Husseini, Sayyid Qutb até Muhammad Badi', o apelo à Jihad contra os infiéis continua vivo. 


Cabe agora ao leitor decidir se vai acreditar nas palavras dos próprios líderes da Irmandade Muçulmana,  ou na versão adocicada plantada no CFR e colhida inocentemente (na melhor das hipóteses, torno a dizer) pelos nossos jornalistas e bem-pensantes. 

Por fim, quero dizer que a população egípcia merece, de fato, livrar-se da ditadura de Mubarak. Mas que ela fique atenta para não sair de uma ditadura ruim apenas para cair nos braços de outra ainda pior, a exemplo do que ocorreu no Irã. Isso sim seria uma verdadeira catástrofe (an-Nakba) não apenas para eles mesmos, mas também para o resto do planeta. Torço muito para que não aconteça. In šāʾ Allāh!

Um comentário:

  1. Vivendo e aprendendo... com o seu blog! Muito bom, Flávio.

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