quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"An-Nakba": O significado da queda de Hosni Mubarak (Parte II)

(Ler Parte I)

O Estado de Israel foi criado em um processo legal e pacífico pelas Nações Unidas. Ele não foi criado em "terras palestinas", mas no território do antigo Império Otomano, comandado  durante centenas de anos pelos turcos, que o perderam após terem sido derrotados na Primeira Guerra. 

Como mostra David Meir-Levi em Big Lies: Demolishing the Myths of the Propaganda War against Israelnão havia "terras palestinas" na época, pois não havia nenhum povo dizendo-se "palestino". O que havia ali eram árabes que se diziam sírios. Foi somente após a Primeira Guerra que os atuais estados da Jordânia, Síria, Líbano e Iraque foram criados - artificialmente criados, a partir do antigo império turco, pelos ingleses e franceses, vitoriosos na guerra. A Jordânia foi criada sobre cerca de 80% do Mandato Britânico da Palestina, originalmente considerada parte do território dos judeus pela Liga das Nações. Desde então, os judeus foram proibidos de possuir terras ali.

Em 1947, o plano de partilha das Nações Unidas determinou a criação de dois estados nos 20% restantes do Mandato Britânico: o estado de Israel, para os judeus; e um outro estado, para os árabes. Esses últimos rejeitaram seu estado e lançaram-se numa guerra contra Israel. Eis a principal razão do problema dos refugiados.

Os refugiados árabes eram cerca de 725.000 pessoas, que fugiram por causa da guerra que os estados árabes - e não os árabes palestinos - iniciaram. Os estados árabes - ditatoriais em sua totalidade - não queriam um estado não-árabe no Oriente Médio. Os líderes de oito nações árabes, cujas populações ultrapassavam em muito a de colonos judeus, deram início à guerra, com invasões simultâneas ao recém criado Estado de Israel. Israel clamou por paz e ofereceu-se para cooperar com seus vizinhos. Os ditadores árabes rejeitaram a oferta e prosseguiram numa guerra de aniquilação contra os judeus. 

A guerra fracassou e Israel saiu-se vitoriosa. Mas o clima de tensão prosseguiu graças à recusa dos estados árabes - especialmente de Arábia Saudita e Iraque - em assinar um tratado de paz com Israel. Até os dias de hoje, os estados árabes, e os palestinos de modo geral, referem-se ao fracasso de sua agressão e à sobrevivência do Estado de Israel pela expressão an-Nakba - "a catástrofe".


Tendo sido derrotados militarmente, os principais líderes árabes partiram para uma guerra verbal e ideológica contra Israel (o que não excluía, é claro, o fomento a grupos paramilitares e terroristas). De modo a justificar os ataques terroristas e a ganhar o apoio da parcela liberal do Ocidente, os estrategistas árabes resolveram acusar Israel de ser uma superpotência de tipo colonial ou imperial. Com isso, eles mascararam seu único objetivo político - eliminar o Estado de Israel - com as vestes do discurso anti-colonialista tão apreciado pela esquerda ocidental.


Foi assim que a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) - ela própria uma criação da KGB (ver Red Horizons, de Ion Mihai Pacepa) - inventou o "povo palestino", numa das mais bem sucedidas farsas da história.


Logo após assumir a liderança da OLP, uma das primeiras medidas de Yasser Arafat foi enviar seu secretário pessoal, Abu Jihad (que viria a ser líder das operações militares da organização), para o Vietnã do Norte, para que se inteirasse das estratégias e técnicas da guerra de guerrilha. Arafat estava impressionado com o sucesso de Ho Chi Min em atrair a simpatia de intelectuais progressistas e liberais dos EUA e Europa. Intelectuais ativistas nos campus das principais universidades norte-americanas vinham conseguindo transformar simbolicamente a ocupação comunista no sul do Vietnã em uma luta por libertação nacional contra o imperialismo yankee.


Uma dica baseada na campanha de relações públicas norte-vietnamita, que forneceu a chave para a vitória comunista e serviu de inspiração para a OLP, foi dada pelo estrategista-chefe do comando de Ho Chi Min, o General Giap: "Parem de falar em aniquilar Israel e transformem sua luta terrorista numa batalha por direitos humanos. Assim vocês terão o povo americano comendo na sua mão" (ver esse outro artigo de David Meir-Levi).


A OLP inspirou-se nesse tipo de movimento para lançar sobre Israel a pecha de potência imperial e, com isso, tingir a luta contra os judeus com as belas tintas da luta pela libertação nacional do povo palestino. O problema em toda essa ofensiva propagandística era um só, e Arafat o sabia bem: jamais houvera um "povo palestino" ou uma "nação palestina" ou qualquer unidade territorial que se pudesse chamar de "Palestina histórica".


A primeira versão da constituição da OLP, de 1964, por exemplo, dizia em seu artigo 24: "Essa organização não exerce soberania regional sobre a margem ocidental do reino Hassemita da Jordânia, sobre a Faixa de Gaza ou sobre a região de Himmah" (ver aqui). Ou seja, para Arafat, antes da Guerra dos Seis Dias, a "Palestina" era Israel. Ela não incluía a Faixa de Gaza ou a Cisjordânia, por exemplo. 


Foi em resposta à derrota na Guerra dos Seis Dias que a OLP reviu sua constituição e, na nova versão lançada em 1968, o conteúdo do artigo 24 foi completamente eliminado. A organização agora passava a alegar a soberania "palestina" sobre Gaza e a Cisjordânia


Em 1977, numa entrevista ao jornal holandês Trouw, Zahir Mushe'in, membro do Comitê Executivo da OLP, deu inadvertidamente com a língua nos dentes:


"O povo palestino não existe. A criação de um Estado palestino é apenas um meio de continuarmos nossa luta contra Israel e pela unidade árabe (...) Apenas por razões táticas e políticas falamos hoje sobre a existência de um povo palestino (...) Por razões táticas, a Jordânia, um estado soberano com fronteiras definidas, não pode requerer o controle de Haifa e Jaffa, mas enquanto 'palestino', eu posso certamente demandar Haifa, Jaffa, Beer-Sheva e Jerusalém" (ver aqui - grifos meus).


E, como informa Alan Hart, biógrafo de Arafat, o próprio líder da OLP afirmou certa vez que "o povo palestino não possui uma identidade nacional. Eu, Yasser Arafat, homem de destino, lhe darei essa identidade por meio do conflito com Israel" (ver aqui).


O plano de Arafat e da OLP foi extremamente bem-sucedido. Com uma facilidade impressionante, eles difundiram a ficção da "Palestina histórica", que teria sido invadida pelos sionistas com apoio britânico. A 'análise' de Arlene Clemesha, por exemplo, é inteiramente baseada nessa versão. A maior parte dos 'especialistas' brasileiros em Oriente Médio tende a responsabilizar Israel pelos conflitos na região e, o que é pior, até mesmo pelo terrorismo islâmico, que seria, então, uma reação desesperada à opressão israelense-americana. Essa é exatamente a versão que, para uma organização como a Irmandade Muçulmana, interessa popularizar.


(continua na Parte III)

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