quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"An-Nakba": O significado da queda de Hosni Mubarak (Parte I)

Era uma vez um paraíso encantado sobre a Terra onde os vinhedos eram abundantes e as flores brotavam por todos os lados. O solo era fértil, a água fresca e potável. Lá, não havia sinal de penúria, fome ou injustiça. O povo que ali habitava vivia feliz e saudável, e a harmonia reinava entre os seres. O paraíso chamava-se "Palestina" e os seus bem-aventurados habitantes, "palestinos". 


Eis que um belo dia vieram os cruéis sionistas e, apoiados pelos poderosos ingleses, roubaram aquela terra, exilaram seu povo e deram início a um reino de terror e limpeza étnica que perdura até os dias de hoje.


É essa visão mitopoiética a principal inspiração para a cobertura jornalística nacional da presente crise no Egito. Mais ainda, a adoção daquele mito como padrão de credibilidade jornalística tem sido praticamente unânime. Se, tempos atrás, a diversidade de linhas editoriais e de opiniões era tida como o supra-sumo de uma imprensa livre e democrática, hoje dá-se o contrário: para serem democráticos, todos (ou virtualmente todos) veículos de comunicação têm que ecoar, em uníssono, a mesma cantilena: os atuais conflitos entre judeus e palestinos são responsabilidade exclusiva de Israel que, tendo conduzido os palestinos a uma situação de miséria e opressão, agora precisa arrumar sozinho uma solução para o impasse que criou.

A mitologia descrita acima subjaz a uma avaliação curiosamente positiva, por parte de nossa imprensa, da organização conhecida como Irmandade Muçulmana, que Israel teme assuma o poder no Egito após a queda de Hosni Mubarak, praticamente inevitável a essa altura. A princípio silenciosos a respeito daquela organização, os formadores tupiniquins de opinião foram forçados a comentá-la, depois que autoridades israelenses relembraram o caso do Irã - quando, no final da década de 70, após a queda do Xá, aquele país passou a ser governado por uma teocracia islâmica totalitária, muito mais repressiva até do que fora o governo anterior, e fortemente anti-americana e anti-Israel.

Se, hoje, ainda não é possível indicar com certeza a participação da Irmandade Muçulmana na promoção da revolta aparentemente popular e espontânea no Egito, é preciso entretanto reconhecer  que, se se tratasse de uma investigação policial, a primeira pergunta a ser feita sobre os eventos seria cui bono? - ou seja, quem lucra com tudo isso? 


A resposta no caso parece ser uma só: a Irmandade Muçulmana, com seu projeto de um Califado Universal. E, se isso acontecer, o grande derrotado será Israel, que restará sem aliados, cercado por regimes que pretendem - como o presidente iraniano Ahmadinejad, por exemplo, tem reiteradamente repetido - varrê-lo do mapa.

Diante dessa possibilidade, que não representa um risco apenas para Israel, mas para todas as democracias ocidentais, o que fez a imprensa brasileira? Resposta: tratou de acusar os israelenses de paranóicos, e de embelezar a Irmandade Muçulmana com todo tipo de eufemismos e mistificações. Vejamos alguns exemplos.

Na edição da Folha de São Paulo do dia 7/02/2011, o colunista Fernando de Barros e Silva escreveu um texto intitulado "Terceira via árabe?", no qual se lê:

“A questão é saber se há espaço para uma terceira via no Egito (e no mundo árabe) - um regime que não seja nem uma ‘ditadura amiga’ dos EUA nem uma teocracia mais ou menos fundamentalista. O primeiro passo para construir esse caminho é não satanizar a Irmandade Muçulmana, principal organização religiosa do país, de maioria moderada, na ilegalidade desde os anos 50. Confundi-la com o extremismo, como querem Israel e a direita em geral, é uma tolice” (Grifos meus).


Curiosa caracterização a do colunista: Israel como uma espécie de caso particular de uma "direita em geral". "Israel" aí já não é uma palavra que designa um "objeto" tão complexo quanto uma nação, e cuja descrição deveria ser igualmente complexa. Nas mãos do colunista, "Israel" passa a ser um mero símbolo estereotipado, utilizado como arma psicológica para provocar a antipatia dos leitores (assim como "direita", "FMI", "imperialismo estadunidense", "George W. Bush" etc.) etc. Não é verdadeiramente espantoso que o colunista crie um monstrengo a quem satanizar - "Israel e a direita" - no instante mesmo em que critica a "satanização" da Irmandade Muçulmana? Como notou Reinaldo Azevedo a respeito do texto de Barros e Silva, não é que o colunista da Folha combata o preconceito - ele combate é o preconceito errado. Contra a Irmandade Muçulmana ele (o preconceito) é repudiado; já contra Israel, ele representa imparcialidade e correção jornalística. 


Mas reservemos o comentário de Barros e Silva para daqui a pouco. Vejamos mais um exemplo, tirado agora não de uma coluna de opinião, mas de uma reportagem supostamente  informativa sobre a Irmandade Muçulmana, saída no Globo Online no mesmo dia da coluna de Barros e Silva. Intitulada "Saiba mais sobre a Irmandade Muçulmana", a reportagem informava:


"FIM DA VIOLÊNCIA. No passado, o movimento teve uma divisão paramilitar, mas renunciou à violência nos anos 1950, comprometendo-se a promover política através da democracia (...) Diferente dos grupos de oposição a Hosni Mubarak da década de 90, a Irmandade tem uma liderança em grande maioria laica, formada por profissionais liberais modernos, como médicos, advogados e professores (...) Hostil a Israel e à política dos Estados Unidos na região, o grupo tem como seu maior aliado estrangeiro o movimento islâmico palestino Hamas, com quem compartilha a posição de uma luta armada contra israelenses"


Na mesma linha do artigo de Barros e Silva, a matéria no Globo Online pretende retratar a Irmandade Muçulmana como um grupo moderado e pacífico, formado não por extremistas religiosos, mas por profissionais liberais e laicos. O estranho é que o autor da matéria aparentemente não viu nenhuma contradição entre afirmar que a organização "renunciou à violência nos anos 1950" e que, ao mesmo tempo, ela tem como maior aliado o Hamas, "com quem compartilha a posição de uma luta armada contra israelenses". Prestar apoio a um grupo terrorista e, ao mesmo tempo, renunciar à violência são duas atitudes que se contradizem. Ainda que a Irmandade Muçulmana não pratique a violência com as próprias mãos, isso não significa que não comande a violência. Adolf Hitler não abria pessoalmente as torneiras das câmaras de gás. Mas vamos adiante.


Ainda no dia 7/02, o colunista Clóvis Rossi, também na Folha de São Paulo, alertava para o risco de se fazer com o islamismo no século XXI o mesmo que se fez com os judeus no século XX, ou seja, submetê-los a um processo de aniquilação. Sem oferecer ao leitor qualquer evidência de que os muçulmanos estejam passando por algo semelhante ao que passaram os judeus, Rossi faz uma estranha reclamação: "Cada vez há mais análises dizendo que 'essa gente' (i. e. os muçulmanos) não tem direito a querer a democracia porque basta que a tenham para que votem, por exemplo, no Hamas" (ler aqui).


Onde será que Rossi descobre essas tais análises? Seria de bom tom ele ter citado pelo menos uma, nem que fosse para matar a curiosidade de seu leitor. Porque, dando uma olhada nos principais veículos de comunicação brasileiros, as únicas 'análises' (se é que se pode usar o termo) que encontrei diziam o mesmo que Rossi, a saber: que os muçulmanos eram vítimas de preconceito e satanização. Rossi nem se deu conta de que, no mesmo jornal e no mesmo dia em que ele reclamava das tais análises preconceituosas contra os muçulmanos, o colunista Fernando de Barros e Silva fazia exatamente o mesmo em relação à Irmandade Muçulmana. Ou seja, Rossi não percebe que sua posição é majoritária. Desafio-o a encontrar, na grande imprensa, alguma análise que trate os muçulmanos por "essa gente". A opinião pública brasileira é quase toda pró-islâmica. E Rossi ainda acha pouco. Ele quer acabar até com as exceções.


Mas um dos casos mais significativos de parcialidade pró-islâmica (e anti-Israel) parece-me ser o da diretora do Centro de Estudos Árabes da USP, sra. Arlene Clemesha, freqüentemente convidada, na condição de especialista neutra e imparcial, para falar sobre os conflitos no Oriente Médio em programas de televisão. 


No programa Entre Aspas, da Globo News, que foi ao ar em 1/02/2011, Clemesha alertava: 


"O que chama atenção é o medo de que isso tudo possa levar a Irmandade Muçulmana ao poder (...) O problema não é o fato em si. O que causa espanto é o medo que o mundo tem disso. Por que é que têm tanto medo de um governo islâmico? (...) Eu acho que é infundado esse medo, porque os islâmicos estão ali prontos para dialogar como qualquer outra força política dentro do país. Eles não são seitas, não são grupos terroristas, são partidos políticos" (ver o programa na íntegra, o trecho acima ocorre por volta dos 6m10s).


Um fato digno de nota é que a entrevistada fez esse comentário no contexto de uma pergunta sobre a transição política no Egito. Pulando por cima da pergunta do entrevistador e do "fato em si", Arlene Clemesha parecia ansiosa por enfatizar um outro ponto, o mesmo de sempre: o medo que Israel e o resto do mundo têm de um governo islâmico é paranóico, fruto de preconceito e "orientalismo" (o guia espiritual de Clemesha e demais analistas brasileiros é Edward Said). A Irmandade Muçulmana, afinal de contas, seria um grupo pacífico, disposto ao diálogo, um partido político regular.


Arlene Clemesha já havia utilizado o mesmo argumento em relação ao Hamas e ao Fatah. Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU Online), em fevereiro de 2009, Clemesha dissera que era preciso reconhecer o Hamas e o Fatah como partidos políticos legítimos. Em suas palavras:


"Em 2006, quando o Hamas venceu as eleições, aconteceu essa situação inaceitável, ou seja, o Estado de Israel, junto com os Estados Unidos e a Europa, não reconheceu a vitória do Hamas. Então, o povo palestino elegeu, democraticamente, um governo e o mundo não reconheceu esse governo e o derrubou. Isso sim é um exercício do autoritarismo e da ingerência. É assim que colocam o Hamas como um grupo terrorista, e não um partido político legítimo" (grifos meus).


Arlene Clemesha afirma que EUA e Israel "colocam o Hamas como um grupo terrorista". Bem, só no período de 1993 a 2008, foram mortos aproximadamente 800 civis israelenses (incluindo muitas mulheres e crianças) em atentados terroristas cuja autoria foi assumida e celebrada pelo Hamas (ver aqui). 


O Hamas, o "partido político legítimo" de Arlene Clemesha, é dono da TV Al-Aqsa. Em 2007, a emissora exibia o programa infantil "Pioneiros do Amanhã". Apresentado por uma menina de 12 anos chamada Saraa Barhoum, que dialogava com um rato (cópia grotesca de Mickey Mouse) de nome Farfur ("borboleta", em árabe), ele seria mais um típico programa infantil não fossem as mensagens de supremacia islâmica e ódio aos judeus que se somavam àquelas mais tradicionais de "escove os dentes" ou "seja obediente". Num dos episódios, por exemplo, ouve-se a voz de uma criança (chamada Sanabel) que ligara para o programa. Em diálogo com os apresentadores, Sanabel - que, pela voz, não aparentava ter mais do que seis ou sete anos - afirma, entre outras coisas, querer "lutar e aniquilar os judeus" e "ser um mártir". Enquanto isso, o rato Farfur dava conselhos de como ser "o senhor do mundo" (ver aqui). 


Diante de tudo isso, é preciso muita cara-de-pau para sugerir que o Hamas seja um partido político legítimo e que a acusação de terrorismo que pesa contra o grupo não passa de uma criação americana e israelense.


Mas Clemesha não se intimida pela realidade. O exercício da cara-de-pau parece ser sua especialidade, vocação até. Naquela mesma entrevista, ela justificava a eventual violência de grupos como o Hamas afirmando que a razão para o conflito no Oriente Médio teria sido a "imigração dos sionistas para a Palestina". O problema teria se agravado em 1948, com a criação do Estado de Israel. Dizia ela:


"Precisamos levantar a questão: que legitimidade existe nessa partilha da Palestina? Como a ONU entrega a um movimento sionista uma terra que tem dono, que tem população, que tem cultura, que tem passado, enfim? (...) Será que não é mesmo hora de nós questionarmos a validade da resolução que criou essa partilha da Palestina? Agora, veja, eu não estou dizendo que vamos eliminar o Estado de Israel e jogar os judeus no mar".


Clemesha fez bem em esclarecer: ela não quer jogar os judeus no mar. Ufa! O leitor já não tinha tanta certeza. Pelo andamento da entrevista - na qual Clemesha chega a acusar os sionistas de terroristas, enquanto insiste no caráter pacífico e ordeiro do Hamas - parece que Israel é mesmo um enclave de crueldade e opressão num oásis de paz e harmonia. Clemesha não faz nenhuma referência ao fato de que Israel é a única democracia da região, e que os cidadãos palestinos que lá vivem gozam de direitos que jamais sonhariam possuir em seus territórios de origem.


Pois bem. Como se vê, aquela mitologia de origem do conflito no Oriente Médio é a única versão conhecida pelos nossos comentaristas. Só isso poderia explicar o fato de que, numa mesma semana, como se atendendo a um comando superior, diversos veículos de comunicação tenham batido de forma unânime na mesma tecla: por um lado, o caráter pacífico de organizações islâmicas e, entre elas, da Irmandade Muçulmana em particular; e, por outro lado, o caráter suspeito dos alertas feitos por Israel. 


Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra. A unanimidade da imprensa brasileira nesse caso parece-o ainda mais - isso na melhor das hipóteses - porque baseia-se em distorções brutais da realidade. Mas, coitada, talvez não seja justo culpá-la. Sem auto-confiança e capacidade de autonomia analítica, os nossos formadores de opinião reproduzem, inseguros, tudo o que lêem no New York Times ou escutam da boca de Noam Chomsky. 


De todo modo, é preciso desfazer as mistificações e as deturpações ideológicas que cercam a situação no Egito. Proponho aqui um breve exame da Irmandade Muçulmana para mostrar que, ao contrário do que sugerem nossas "velhinhas de Taubaté" dos meios de comunicação, Israel tem toda a razão em se preocupar. Antes, porém, é preciso dizer alguma coisa sobre a mitologia da vitimização palestina. Eis o assunto da próxima postagem.


(continua na Parte II).

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