segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A vitória de Stálin

O filósofo Jean-Paul Sartre escreveu certa vez que, para os homens de sua geração (nascidos no começo do século XX), o evento mais decisivo do século não foram as duas grandes guerras mundiais, mas a ascensão do socialismo e a fundação do Estado comunista na Rússia. Comentando sobre o assunto, o filósofo e teólogo Thomas Molnar afirmou: "A avaliação de Sartre sugere que ocorrências trágicas e catastróficas tais como as guerras modernas, a despeito das profundas cicatrizes deixadas em seus contemporâneos, importam menos em nossa memória coletiva do que eventos que encarnam, ou parecem encarnar, os grandes sonhos e aspirações da humanidade" (Utopia: The Perennial Heresy, New York: Sheed and Ward, p. 1).

De fato, desde a época de Sartre, o Comunismo foi e continua sendo um catalizador de utopias. Por todo o mundo, pessoas continuam a usar a foice e o martelo - estampada em camisetas, bottons, bandeiras - como símbolo de rebeldia e luta por um mundo melhor. Che Guevara, ícone da Revolução Cubana, possui estatuto de santo entre os jovens do mundo todo. Há ainda no Ocidente (e especialmente na América Latina) uma série de partidos declaradamente comunistas, herdeiros da Internacional Socialista dos tempos da União Soviética. E, de um jeito ou de outro, o fato é que o Comunismo enquanto símbolo da luta por justiça e igualdade continua influente, a despeito do fracasso político e econômico dos regimes soviético e chinês.


Tudo se passou de modo bem diferente com uma outra utopia moderna, também socialista (nacional antes que internacional, embora igualmente expansionista), também em busca de um mundo melhor e de uma humanidade renovada, igualmente crente no poder redentor da ciência (agora já biológica, antes que sociológica). Refiro-me, é claro, ao Nazismo ou - um termo que caiu em desuso - ao Nacional-Socialismo. Hoje em dia, o Nazismo definitivamente não é cult, muito menos pop - ainda que grupos neo-nazistas pipoquem aqui ou ali (sobretudo na Europa). Muito pelo contrário, em quase todo o Ocidente, a apologia ao Nazismo é considerada, com muita justiça, um crime grave.


O que terá se passado com essas duas utopias, semelhantes em muitos aspectos, quase contemporâneas, para que recebessem da história tratamento tão desigual? Como o Comunismo pôde, inclusive, ser considerado essencialmente oposto ao Nazismo?


A única resposta que me vem à mente é a seguinte: enquanto o Nazismo foi derrotado, o Comunismo saiu-se o grande vitorioso da Segunda Guerra Mundial. E, como se sabe, são os vitoriosos que costumam contar sua versão da história. Se esse vitorioso for Stálin, então, aí mesmo é que a história sairá do feitio que lhe interessa, mesmo que para isso seja necessário esconder documentos, manipular biografias, cortar retratos. Só recentemente, após a abertura dos arquivos de Moscou, descobriu-se, por exemplo, que Stálin entregou para a Gestapo milhares de judeus que haviam buscado refúgio na URSS, acreditando inocentemente na farsa montada pelo ditador comunista, que publicamente alardeava seu anti-nazismo de propaganda, enquanto, nos bastidores, cooperava intensamente com o Estado-Maior alemão. Mas estou me adiantando.


Ao contrário do que se diz, o Comunismo não acabou com a queda do muro de Berlim. A versão de Stálin ainda é a versão corrente no imaginário popular. Até mesmo o abandono do termo "Nacional-Socialismo" para caracterizar o regime de Hitler - por sugerir uma incômoda proximidade verbal com o "Internacional-Socialismo" - é obra do ditador soviético. E, embora Stálin tenha sido posteriormente criticado pelos comunistas que o sucederam, esses últimos colheram os frutos plantados por ele. Dentre esses frutos, penso que o mais importante foi o sucesso em dissociar historicamente os dois socialismos modernos, o internacional e o nacional. Ao primeiro, coube o privilégio de poder manter intacta e imaculada sua ideologia, independentemente dos crimes  hediondos cometidos contra a humanidade. Depois do regime soviético, outras tentativas de fundar a sociedade comunista se sucederam e ainda se sucedem, todas elas com resultados catastróficos em termos de mortalidade humana (com destaque, é claro, para a Revolução Cultural de Mao Tse Tung). Ao segundo, o Nacional-Socialismo, ao contrário, coube assumir sozinho todo o fardo histórico de suas monstruosidades, que, de modo geral (à exceção de uns poucos fanáticos marginalizados), conspurcaram definitivamente (graças a Deus!) seus ideais. Em suma: o Nazismo pagou um alto preço pelos seus atos, já o Comunismo não.


Ao aliar-se aos EUA para combater os nazistas ao fim da Segunda Guerra, Stálin conseguiu difundir a idéia de que Comunismo e Nazismo eram antagonistas em essência. No entanto, qualquer estudo sério dessas duas grandes utopias modernas revela que, excetuando questões de detalhe, elas eram fundamentalmente gêmeas. O que ocorreu na Segunda Guerra entre comunistas e nazistas foi algo como um conflito entre irmãos, uma disputa entre facções rivais, ambas modernas e revolucionárias, ambas ansiosas por instaurar uma nova ordem mundial (ver Modris Eksteins, A Sagração da Primavera, Rio de Janeiro: Rocco, 1992). Stálin pretendia usar Hitler para destruir a velha ordem européia burguesa e liberal (representada, sobretudo, pela Inglaterra e pela França). O problema é que acordos com fanáticos sempre podem falhar. Nem Stálin nem ninguém poderia imaginar que Hitler fosse atacar a URSS. Mas, ainda assim, Stálin soube capitalizar a sublevação de Hitler em benefício próprio.


A questão é que o Nazismo e o Comunismo rezavam pela mesma cartilha. Ambos acreditavam que, para criar a nova ordem mundial, era sumamente necessário a eliminação de certas categorias de pessoas: os judeus, no caso do nazistas; os burgueses, no caso dos comunistas. Não por acaso, os dois regimes foram os campeões mundiais em genocídio, atingindo, juntos, números até então inéditos na história da humanidade. Segundo o estudo estatístico do cientista político R. J. Rummel, especialista no assunto e autor do livro Death by Governmentos regimes comunista (incluindo URSS e China) e nazista assassinaram, juntos, cerca de 120 milhões de pessoas, isso em pouco mais de 50 anos (ver tabela). Rummel propôs o termo "democídio" para qualificar as mortes provocadas deliberadamente por um governo contra a população civil (ver a homepage do autor).


Mas a contribuição dos nazistas para essa macabra estatística de democídio é até modesta, se comparada aos feitos dos governos de Stálin e Mao Tse Tung. Dos 120 milhões de pessoas mortas por comunistas e nazistas, os regimes soviético e chinês são responsáveis diretos por cerca de 96 milhões, o que representa 80 % daquele total. Ou seja, mesmo o horror do Holocausto não se equipara ao potencial destrutivo dos regimes comunistas. O Comunismo é, sem sombra de dúvida, o grande campeão em genocídio (ou democídio, como o chama Rummel) de toda a história humana. 


Na apresentação de Death by Government, o também estudioso do assunto Irving Louis Horowitz sugere que o estudo de Rummel aponta para "a necessidade de rever nosso senso da profundidade dos horrores cometidos por regimes comunistas contra a humanidade. Os números são tão grotescos quanto a isso que devemos, de fato, revisar nossa sensibilidade acerca do estudo comparativo dos totalitarismos para perceber que, dos dois maiores horrores sistemáticos do século, os regimes comunistas possuem uma considerável vantagem sobre os fascistas no que diz respeito à sua propensão homicida" (Death by Government, New Jersey: Transaction Publishers, 1994, p. xiii).


Diante do exposto acima, resta ainda mais surpreendente que o Comunismo goze de autoridade moral e política (e, em muitos casos, desperte simpatia) ainda nos dias de hoje. Enquanto acusar alguém de nazista é uma ofensa grave, muitos se orgulham de ser chamados de comunistas, ostentando a convicção na justeza de sua causa como um claro indício de força de caráter e "sensibilidade social". Outros, mesmo negando o rótulo, acreditam ter superado ou aprimorado o Comunismo de outrora, desatentos para o fato de que a eterna superação dialética de si próprio é uma característica essencial do movimento comunista desde seus primórdios. 


O fato é que se hoje a apologia do Nazismo dá cadeia, a apologia do Comunismo resulta freqüentemente em cargos e posições de destaque no meio universitário, nas artes, no show business, na indústria cultural. Como foi possível ao movimento comunista manter intacta sua autoridade moral? A resposta é uma só: os comunistas subseqüentes fizeram com Stálin o que esse último fizera com Hitler - demonizaram-no. Transformando Stálin em bode expiatório, o movimento comunista logrou salvaguardar a doutrina, que teria sido traída e aviltada pela brutalidade stalinista. Num golpe retórico algo rousseauniano, o revisionismo comunista concluiu: a doutrina era essencialmente boa, Stálin é que a corrompera. Foi um golpe de mestre! Não que Stálin não fosse, em verdade, um "demônio" (no sentido dostoievskiano do termo)[1]. Mas estava longe de ser o único.


Uma das conseqüências do revisionismo comunista foi a beatificação de certos personagens, paralelamente à demonização de Stálin. Uma vez que Stálin já não servia para representar a maravilhosa ideologia comunista, tratou-se de eleger uma nova figura. Isso foi o que ocorreu com Trótsky, por exemplo. Tendo sido, em determinado momento, um opositor a Stálin, e assassinado de forma brutal a mando dele, Trótsky caía como uma luva para ocupar o papel de mártir do "verdadeiro" Comunismo. Sendo assim, um conflito apenas estratégico e circunstancial entre os dois líderes comunistas, passou a ser representado como uma ruptura fundamental entre um traidor da causa e o seu mais nobre defensor. 


Peço licença ao leitor para abrir um parêntese, a título de curiosidade arqueológica. Há ainda hoje, aqui no Brasil, um punhado de stalinistas renitentes, ansiosos por recuperar a imagem do velho guru. É o caso, por exemplo, do filósofo petista João Quartim de Moraes, professor da Unicamp. Em uma resenha do livro Stálin: um novo olhar, de Ludo Martens (Rio de Janeiro: Revan, 2003), Moraes quase não cabe em si: "Requer coragem intelectual desafiar o maciço e tenaz preconceito que cerca a imagem de Stalin" (ver aqui). Para quem não liga o nome à pessoa, Quartim de Moraes foi integrante da luta armada nos anos de 1960, tendo feito parte da POLOP (Política Operária) e, posteriormente, contribuido na fundação da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Quartim de Moraes integrou o "tribunal revolucionário" responsável pelo "justiçamento" (isto é, execução sumária sem direito à defesa) do capitão do Exército norte-americano Charles Rodney Chandler, metralhado na saída de sua residência, na frente da esposa e do filho de quatro anos, por ter sido considerado, pelos terroristas, um agente da CIA. Quartim de Moraes é, hoje, um dos entusiasmados signatários de um tal Manifesto dos Filósofos pró-Dilma Roussef.


Fim do parêntese. A narrativa à qual me referi anteriormente (que dissocia radicalmente Stálin e Trótsky), é claro, não passa de uma total distorção da história da URSS. Como sugere um dos maiores historiadores do marxismo, Leszek Kolakowski: "Trótsky não ofereceu nenhuma forma alternativa de Comunismo ou qualquer doutrina diferente da de Stálin" (Main Currents of MarxismLondon & New York: W. W. Norton, 2005, p. 962). 


Com efeito, foi Trótsky quem, em 1918, seguindo orientação de Lênin, inaugurou os campos de concentração soviéticos, que futuramente serviriam de modelo para os nazistas, e que continuaram a ser usados pelo regime soviético após o fim da Segunda Guerra. Os campos soviéticos foram designados inicialmente para punir os inimigos do Exército Vermelho e os ex-oficiais czaristas relutantes em aderir à Revolução. No entanto, esses locais logo passaram a servir também para a detenção de camponeses insurgentes, pois que submetidos à requisição forçada de grãos por parte do governo revolucionário (uma política que, entre os anos de 1932 e 1933, já com Stálin, resultou na morte por inanição de milhões de ucranianos, na tragédia que ficou conhecida como "Holodomor" ou "A Grande Fome" - ver Robert Conquest, The Harvest of Sorrow, University of Alberta Press, 1986). Estima-se que, por volta de 1921, cerca de 80 % dos detentos nos campos de concentração soviéticos era de camponeses (ver George Leggett, The Cheka: Lenin’s Political Police, Oxford: Oxford University Press, 1981, p. 178).


O Grande Terror não começou com Stálin, apenas foi intensificado por ele. Em 1919, Lênin dissera: "não reconhecemos qualquer liberdade, ou igualdade, ou democracia trabalhista que se oponham aos interesses de emancipar o trabalho da opressão do capital" (ver Robert Conquest, The Great Terror: A Reassessment, New York: Oxford University Press, 2008, p. 6). A Revolução fora feita em nome da classe operária, mas logo a vanguarda do Partido começou a considerá-la indigna de confiança. Lênin insistia que a "violência revolucionária" era também essencial "contra os elementos vacilantes e rebeldes das próprias massas de trabalhadores" (ibid.). 


Em suma, para a doutrina comunista, o trabalhador abstrato e genérico era algo maravilhoso e comovente, mas o trabalhador real, de carne e osso, era um incômodo obstáculo à Revolução. 


Em 1921, estava bastante claro que a maior parte dos trabalhadores russos se opunha ao Partido. Karl Radek, discursando para cadetes do Exército, disse-o com todas as letras: "O Partido é a vanguarda politicamente consciente da classe trabalhadora. Estamos agora num momento em que os trabalhadores, no limite de sua resistência, se recusam a seguir a vanguarda que os conduz à batalha e ao sacrifício (...) Devemos nos render aos clamores dos proletários que atingiram o limite de sua paciência, mas que não compreendem seus reais interesses como nós compreendemos? Seu estado mental é, no presente, francamente reacionário" (ibid.).


Pronto. Tínhamos aí a palavrinha mágica da retórica revolucionária - "reacionário" - usada, agora, contra os próprios supostos beneficiários da Revolução. A acusação de "reacionário" foi uma constante no modus operandi comunista e nazista. "Reacionários" eram os entraves que impediam o advento da nova sociedade, e que, portanto, deveriam ser eliminados. Note-se que o rótulo é extremamente flexível e, manipulado por líderes prepotentes e fanáticos, só poderia conduzir - como conduziu - a um brutal sistema de acusação, perseguição e extermínio em massa. 


Nas palavras de Robert Conquest: "O Partido, apartado de sua justificação social, agora sustentava-se apenas sobre o dogma. Ele tornara-se, no modo mais clássico, um exemplo de seita, um fanatismo. O Partido assumiu que o apoio popular ou proletário podia ser dispensado e que a mera integridade dos pretextos seria adequada, justificando tudo pelo caminho" (ibid. p. 7).


Mas o extermínio como método revolucionário - que ficou evidente ao longo da Revolução Russa - tampouco foi, digamos, apenas uma necessidade pragmática da Revolução. Tal idéia era uma necessidade teórica intrínseca ao projeto comunista desde sua fundação intelectual, com Marx e Engels. 


Argumentando contra movimentos nacionalistas dos povos eslavos, e em favor do imperialismo austro-húngaro, Marx e Engels escreveram, no capítulo XIV de Revolução e Contra-Revolução na Alemanha: 


"Acabaram, assim, por agora e, provavelmente, para sempre, as tentativas dos eslavos da Alemanha para recuperar uma existência nacional independente (...) estas nacionalidades moribundas, os boémios, os caríntios, os dálmatas etc. tentaram tirar partido da confusão universal de 1848, de modo a restaurar o seu statu quo político do ano de 800 (...) o destino natural e inevitável dessas nações moribundas era de permitir que se completasse este progresso de dissolução e de absorção pelos seus vizinhos mais fortes. Esta não é certamente uma perspectiva muito lisonjeira para a ambição nacional dos sonhadores pan-eslavistas que tinham conseguido agitar uma parte dos boémios e dos eslavos do sul; mas podem eles esperar que a história volte atrás mil anos a fim de agradar alguns grupos humanos tísicos que, em toda a parte do território que ocupam, estão penetrados e rodeados de alemães, que, desde tempos quase imemoriais, não tiveram, para todos os efeitos de civilização, outra língua a não ser a alemã, e a quem faltam as mais elementares condições de existência nacional, o número e a solidez de um território? (...) Depois do seu primeiro esforço, que se evaporou em 1848, e depois da lição que o governo austríaco lhes deu, não é provável que seja feita outra tentativa em ulterior oportunidade. Mas se eles tentarem de novo, com pretextos semelhantes, aliar-se à força contra-revolucionária, o dever da Alemanha é claro. Nenhum país num estado de revolução e envolvido numa guerra externa pode tolerar uma Vendée[2] no seu próprio seio". (Marx & Engels, Revolution and Counter-Revolution: Or, Germany in 1848, London & New York: Cornell University Library, 1848[1896], pp. 99-101).


Em "O Conflito Magiar", artigo publicado em 1849 na revista Nova Gazeta Renana, editada por Marx, Engels também criticava os pan-eslavistas: 


"Essas relíquias de nações impiedosamente mantidas sob botas no curso da história, como dizia Hegel, esse lixo étnico [Völkerabfälle, no original] sempre se transforma em porta-estandarte da contra-revolução, e assim permanece até o seu completo extermínio [gänzlichen Vertilgung, no original] ou perda de seu caráter nacional, na medida em que a sua própria existência em geral é, por si mesma, um protesto contra uma grande revolução histórica" (Engels, “The Magyar Struggle”. In: Collected Works of Karl Marx and Friedrich Engels, 1848-49, vol. 8, New York: International Publishers, 1849[1977], p. 234).


Segundo George Watson, historiador da literatura socialista, essa era uma das primeiras vezes na história (senão a primeira) que a idéia de genocídio era advogada de forma tão explícita (ver The Lost Literature of Socialism, Cambridge: The Lutterworth Press, 1998, p. 85).


Em suma, Marx e Engels acreditavam que "nada na história é conquistado sem violência e crueldade implacável" e que, portanto, deveria haver "uma batalha inexorável de vida ou morte contra aqueles eslavos que traíssem a Revolução; uma luta de aniquilação e terror cruel - em defesa não dos interesses da Alemanha, mas dos interesses da Revolução" (Marx e Engels, “Democratic Pan-Slavism”. In: Collected Works of Karl Marx and Friedrich Engels, 1848-49, vol. 8, New York: International Publishers, 1849[1977], p. 378).


Todas as características do Nazismo - racismo, apologia do genocídio, acusações de reacionarismo como pretexto para a eliminação de opositores - se encontravam já no Comunismo, e isso desde sua formulação original. Mas não é só isso. Até mesmo o anti-semitismo e a proposta de uma "solução final" para a "questão judaica" já estavam na obra de Marx, que tendia a identificar, fazendo uso dos estereótipos mais populares, os judeus com o grande capital. 


Assim é que, em "A Questão Judaica", Marx afirmava abertamente: “Qual é o fundamento secular do Judaísmo? A necessidade prática, o interesse egoísta. Qual é o culto secular do judeu? A usura. Qual o seu Deus secular? O dinheiro. Pois bem, a emancipação da usura e do dinheiro, isto é, do judaísmo prático, real, seria a auto-emancipação de nossa época (...) A emancipação dos judeus é, em última análise, a emancipação da humanidade do judaísmo” (Marx, “On the Jewish Question”. In: Karl Marx. Early Writings, London: Penguin Books, 1843[1992], pp. 236-237). 


Adolf Hitler conhecia a obra de Marx. Não por acaso, ele certa vez questionou: "Como, enquanto socialista, não ser um anti-semita?" (George Watson, The Lost Literature of Socialism, Cambridge: The Lutterworth Press, 1998, p. 80).


Em suma, as afinidades ideológicas e pragmáticas entre Comunismo e Nazismo são inegáveis. Antes que o serviço de propaganda soviética viesse a inverter a realidade - contando, para isso, com o auxílio dos "idiotas úteis" (na expressão de Lênin) espalhados por todo o planeta (ver, sobre o assunto, o livro do ex-agente de propaganda da KGB, Ladislav Bittman: The KGB and Soviet Disinformation: An Insider's View, Pergamon-Brassey's International Defense Publishers, 1985) - todos sabiam de tais afinidades. Em 1940, por exemplo, o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt considerava a URSS uma potência do Eixo.


O projeto de ambos os socialistas (internacionais e nacionais) foi brilhantemente profetizado por Alexis de Tocqueville: "O Estado pode fazer à humanidade tudo o que quiser - isso resume suas teorias". Qualquer pessoa relativamente culta seria capaz de perceber aquelas afinidades apenas pela leitura das obras dos principais líderes comunistas e nazistas. Ou seja, as afinidades fazem parte da essência mesma dos dois movimentos (talvez devêssemos chamar de um movimento - o socialismo) desde sua origem.


Após a queda do muro de Berlim, e a abertura dos arquivos de Moscou, a situação se esclareceu ainda mais. As afinidades ideológicas, antes já facilmente identificáveis (e, de fato, identificadas por autores perspicazes, ainda que, graças à propaganda stalinista, ignoradas pelo grande público), revelaram-se muito mais profundas. Na verdade, começou-se a descobrir que não estávamos diante de meras "afinidades", mas de um projeto comum de poder. A ascensão política e militar do Nazismo só foi possível graças a uma colaboração de anos com a URSS, a grande responsável pelo rápido fortalecimento do exército de Hitler.


Essa história tenebrosa, inacessível ao público durante muitos anos, pode ser vista de forma sintética, mas muito contundente, no documentário The Soviet Story, do diretor letão Edvins Snore (disponível no youtube em 9 partes: Parte 1; Parte 2; Parte 3; Parte 4; Parte 5; Parte 6; Parte 7; Parte 8; Parte 9). O documentário, aliás, deveria ser exibido nas aulas de história para crianças e jovens. Sobretudo no Brasil, onde os livros escolares de história costumam pintar o Comunismo com belas tintas.


Para o leitor que, eventualmente, queira se aprofundar no assunto do documentário, eu recomendo o livro The Red Army and the Wehrmacht: How the soviets Militarized Germany, 1922-33, and Paved the Way for Fascism, dos historiadores russos Yuri Dyakov & Tatyana Bushuyeva (New York: Prometheus Books, 1995), que confirmam as pesquisas anteriores de Ernst Topitsch e Viktor Suvorov


Fruto de uma minuciosa pesquisa nos arquivos de Moscou, o livro mostra como, nos anos que antecederam a Segunda Guerra, o regime soviético investiu no rearmamento secreto da Alemanha e cedeu parte do território da URSS para que as tropas alemães se reestruturassem, longe da vigilância franco-britânica. Como se sabe, ingleses e franceses, vitoriosos na Primeira Guerra, haviam imposto à Alemanha - por meio do Tratado de Versalhes - pesadas punições e humilhações, incluindo o desarmamento forçado.


Dizem os autores do livro: "Até recentemente, temas 'inconvenientes' eram esmagados pela censura ideológica, e ainda hoje o caminho até eles é espinhoso. A ideologia oficial orientou seus seguidores a justificar suas próprias falhas por meio de outras pessoas. Até hoje observa-se o fenômeno da substituição de uma mentira ou meia-verdade por outra. A verdade não deixa de ser revelada porque é difícil encontrá-la, mas porque não é afirmada. Mas é chegado o momento de contar às pessoas uma amarga verdade: que nada menos do que o fascismo real assolou o nosso país, e que o totalitarismo que comandou o destino das pessoas na URSS e na Alemanha foi uma das razões para a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Sob muitos aspectos, o fascismo de Hitler foi estimulado por Stálin. Poucos historiadores sabem que o Wehrmacht alemão (Reichswehr)[3] saiu das restrições de Versalhes para se restabelecer em nosso solo. Na URSS, sob condições ultra secretas, medidas militares conjuntas foram tomadas, campos de pouso foram construídos, tanques e aviões eram operados. A nata do Wehrmacht fascista foi treinada lá. Isso tudo foi atestado em documentos. Os documentos disponíveis chocam até mesmo profissionais, mas eles constituem apenas uma parte dos segredos ocultados das pessoas" (op. cit. pp. 9-10).


Enfim, fica cada vez mais claro que Comunismo e Nazismo fazem parte de uma mesma história de terror, e que os conflitos que os dividiram ao fim da Segunda Guerra Mundial foram um estremecimento excepcional em relações outrora amistosas e de cooperação. O respeito imerecido que o Comunismo ainda goza nos dias de hoje só pode ser explicado, portanto, como fruto de uma deliberada cegueira ideológica por parte de seus apologistas. Com uma historiografia cada vez mais abundante sobre os horrores dos regimes soviético e chinês (para não falar em Cambodja, Cuba, diversos países da África etc.) é inadmissível que haja ainda gente disposta a dar mais uma chance ao projeto, como se as tragédias concretas dele resultantes tivessem sido meros acidentes e desvios de uma bela utopia. É incrível que uma doutrina famosa por postular, justamente, a conexão íntima entre teoria e prática (como postula o marxismo) possa ter sido re-interpretada por seus adeptos de modo a servir ao argumento contrário: o de que a prática concreta dos regimes comunistas não teve qualquer relação com o fundamento teórico da doutrina. Citando novamente os autores da obra acima referida: "A ideologia oficial orientou seus seguidores a justificar suas próprias falhas por meio de outras pessoas". 


O problema do pensamento utópico quando aplicado à realpolitik não são os desvios da utopia. O problema é a utopia mesma, sobretudo quando serve de parâmetro para julgar a realidade presente. O pensamento utópico deveria ser proibido para maiores de 18 anos, pois a irmã gêmea do sonho costuma ser a auto-permissividade. Os exemplos históricos do Comunismo e Nazismo deveriam ser o bastante para derrubar um conhecido dito popular: "sonhar não custa nada". Depende... No caso socialista, custou muito!


Já está mais do que na hora de difundir as descobertas da historiografia soviética pós-1989 para o grande público, derrubando de vez a versão fraudulenta propagandeada por Stálin. O que, até o momento, tem impedido tal realização é a cega obstinação de intelectuais, jornalistas, formadores de opinião em geral, na recusa em lidar com sua própria consciência. Muitos se recusam a amadurecer e ver desfeitos seus sonhos e utopias de juventude. Mas essa é a sua responsabilidade - fazer com que a foice e o martelo, em vez de desfilar livremente no peito dos jovens desavisados, passe a ocupar o mesmo lugar que o de sua camarada, a suástica: a lata de lixo da história. E que, sempre juntas, as duas nunca mais saiam de lá! É claro que sempre haverá um ou outro que, assim como o filósofo petista João Quartim de Moraes, sentem uma atração irresistível por revirar o lixo em busca de alimento.



Notas:
[1] Em nota à edição brasileira de "Os Demônios", de Dostoiévski, o tradutor Paulo Bezerra comenta: "O primeiro nome de guerra de Stálin foi 'Biesochvilli', uma aglutinação de biês, isto é, demônio, com chvilli, sufixo formador de nome em georgiano" (Os Demônios, São Paulo: Editora 34, 2004, p. 7).
[2] Alusão ao motim contra-revolucionário na Vendée (província ocidental da França), desencadeado em 1793 pelos realistas franceses, que utilizaram o campesinato desta província para a luta contra a Revolução.
[3] Reichswehr era o nome do conjunto das forças armadas alemãs num período entre as duas guerras mundiais, entre 1919 e 1935, posteriormente rebatizada de Wehrmacht.

9 comentários:

  1. Não poderia ser melhor. Parabéns pela brilhante apresentação.

    ResponderExcluir
  2. Eu sempre tive a impressão de que o comunismo é um grande engano, mas me faltavam os argumentos para corroborar esta tese. Obrigado por me oferecer algumas ferramentas para o duro trabalho de impor um choque de realidade a estas mentes.

    ResponderExcluir
  3. Fico feliz em ter sido útil. Grato pelos comentários.

    ResponderExcluir
  4. Flávio, conheci teu blog há poucos meses, qdo vc o divulgou nos cometários a um artigo do MSM. Gostei do que li, mas, como já fazia mais de mês da última atualização, fiquei achando que estava abandonado. Agora vi que vc demora, mas, quando escreve, bota pra lascar (hehe). Mas seria realmente interessante se vc pudesse postar artigos com um pouco mais de frequência, para criar o hábito de visitar sua página. Eu, hoje, só entrei aqui por acaso. Como estou de férias e navegando na internet de bobeira, vi o endereço da página no meu histórico de sites visitados e resolvi dar uma conferida. Não precisa ser nenhum Reinaldo Azevedo (hehe), só postar com pouquinho mais de habitualidade, mas imagino que vc faz isso nas horas vagas e um artigo como esse não se escreve em 5 minutos. De qualquer forma, parabéns, continue o belo trabalho. Vc não está sozinho.

    ResponderExcluir
  5. Caro André,

    Muito obrigado pelos comentários e pelo incentivo. Você tem razão. É que, no momento, estou sem tempo para trabalhar no blog, mas espero escrever com mais freqüência a partir do ano que vem.

    Um abraço e um ótimo fim de ano.

    ResponderExcluir
  6. Flávio, sensacional o documentário The Soviett Story. Vi todas as partes no youtube. Gostei tanto, que comprei o DVD pela Amazon. Chegou ontem. Já vi duas vezes. Ótima dica! Espero que, como vc diz no comentário aí acima, vc escreva com mais frequência a partir deste ano.

    ResponderExcluir
  7. Gostaria de comentar a nota [1]. O sr. Paulo Bezerra, que traduziu Os Demônios, suprimiu partes da poesia de Pushkin em se pede ajuda ao Senhor. Será Paulo Bozerra, ele mesmo, um demônio? Será que estou equivocado? Comparem a tradução feita por Rachel de Queiroz com a tradução mutilada de Bezerra.

    ResponderExcluir

Das Virtudes e Vícios do Ceticismo

Em maio de 2012, o autor destas linhas frequentava um curso preparatório para o difícil e concorrido concurso do Itamaraty. Faziam três...